O óbvio
Expectativas crescentes, como sabem os historiadores, abastecem as chamas da mudança porque criam uma discrepância entre o que as pessoas têm e o que elas agora sentem que é possível ter. Essa discrepância é a origem do descontentamento e o motor das reformas. Por que é importante que se entenda esse fenômeno?
Porque a motivação por mudanças e crescimento continuados surge de acordo com a ordem das insatisfações apresentadas em uma escala crescente, movendo-se então em direção à solução dos problemas mais importantes. O paradoxo das expectativas crescentes nos ajuda a entender melhor por que nos melhores contextos existem as maiores inquietações e exigências por mudanças efetivas.
Exemplo disso foram os famosos protestos de estudantes na praça Tiananmen, na China, em 1989. As lideranças políticas de então duplicaram a riqueza da China em uma década. E o que obtiveram com isso? De sua perspectiva, muito ódio, protestos e ingratidão dos estudantes. Mas, em vez de avaliarem seu sucesso com base no nível de insatisfação gerado, elas próprias se revoltaram e recorreram então à repressão maciça.
As mais importantes realizações surgem quando se analisa com novos olhos aquilo que se considera um dado ou que não se consegue perceber por ser tão óbvio. O óbvio é o maior coeficiente da dificuldade hoje nas previsões de tendências como as que norteiam nossas lideranças políticas.
Há uma forte tendência de explicar os problemas do Brasil em termos de uma longa enumeração de fatores. No entanto, o principal obstáculo ao crescimento do país atualmente não é a longa lista de nossas notórias dificuldades, estruturais como conjunturais, mas a simples falta de pensamento claro.
Dispondo-se de um modelo, é possível averiguar o seu grau de compatibilidade com os fatos. É preciso estar preparado para trabalhar através de pequenos modelos antes de empregar termos pomposos. Não dispor de um modelo da economia brasileira que se compatibiliza bem com os fatos faz com que a taxa de crescimento pretendida (4%) seja um objetivo completamente irreal nesse momento.
“O que se denomina vagamente de bom-senso é mais complexo do que a maioria das admiradas especialidades técnicas”, afirma Marvin Minsky. O baixo crescimento é consequência normal da análise de investidores racionais sobre as implicações das políticas insustentáveis de estímulo ao consumo.
*Tarcisio Padilha Junior é engenhero.
