Renegados e heróis

Com qualidades intelectuais e coragem, Chávez cumpriu sua missão histórica 

É inegável o papel do indivíduo na história. No dizer de Marx,”os homens fazem a sua própria história; contudo não a fazem de acordo com a sua vontade, mas sob circunstâncias que não são de sua escolha”.

Embora os homens não possam mudar o curso da história apenas com a sua vontade, o papel destes perante a sociedade é de extrema relevância. Se o homem dedica sua vida ao progresso da sociedade, buscando o novo e ajudando a criar um sistema progressista, será verdadeiramente uma grande personalidade. É o caso de Hugo Chávez, que entendeu o rumo objetivo do processo histórico e soube ver as demandas por desenvolvimento da sociedade venezuelana. Com qualidades intelectuais e coragem, pode cumprir com a missão que a história lhe exigiu.

Eleito Presidente da República, em 1998, Hugo Chávez tomou consciência da necessidade de recuperar a soberania venezuelana, isto é, romper com a dependência externa e rumar na direção da Revolução Bolivariana.

Afrontado, em 2002, por um golpe militar, financiado pelos EUA e encabeçado por uma oficialidade simpática ao imperialismo ianque, foi salvo pela mobilização popular. A quartelada contra a ordem estabelecida mostrou a Chávez que sem organização revolucionária não se podia atingir os objetivos da revolução.

De volta ao Palácio Miraflores, Chávez se convenceu da necessidade de criar um partido da revolução (Partido Socialista Unido da Venezuela), deixando implícita, pela primeira vez, a sua opção pelo socialismo. Sem muita nitidez ideológica, o partido, no entanto, teve o mérito de juntar os segmentos progressistas da sociedade venezuelana, em torno do projeto chavista, cujo ponto central seria uma revolução anti-imperialista.

Num contexto histórico inadequado, destratado pelos genocidas Bush e Obama e sob o fogo das elites venezuelanas, Chávez, ainda assim, optou pelo socialismo e imprimiu à Revolução Bolivariana um rumo que poucos esperavam. Não sendo marxista, deu uma marca pessoal ao processo de transformação, isto é, conseguiu forjar uma trajetória de revolucionário humanista, o que lhe permitiu o reconhecimento do seu povo e dos oprimidos de toda a América Latina, conforme se viu no seu funeral, acompanhado por milhões de compatriotas e dezenas de chefes de Estado e de governo, vindos de todos os recantos do mundo.

Em vida, buscou ardorosamente a integração entre os povos irmãos latino-americanos e implantou programas sociais, que foram capazes de erradicar o analfabetismo, distribuir livros e prestar uma assistência médica de qualidade e gratuita. Além dessas medidas fundamentais, garantiu que as divisas geradas pelo petróleo fossem canalizadas para os interesses do povo venezuelano, em vez de enriquecer as elites impatrióticas e seus sócios no exterior. No campo diplomático, optou por uma política externa progressista, independente e corajosa, denunciando as guerras de rapina e as conspirações perpetradas pelo imperialismo americano, ao mesmo tempo em que se aproximou dos países atingidos pelas sanções econômicas unilaterais dos ianques, como Cuba, Irã e Síria.

Não obstante a investida de uma direita raivosa, liderada pelo sionista Henrique Caprilles, pau-mandado de Washington, Chávez seguiu uma linha desenvolvimentista que privilegiou o direito ao trabalho, a saúde e a educação. Com a visão aguda de um autêntico homem de Estado, prestou um grande serviço aos povos da América Latina, restituindo-lhes a esperança num mundo sem miséria e fome. Falecido, deu entrada no panteão dos heróis da nação latino-americana.

Amado pelos injustiçados e caluniado pelas classes dominantes, Chávez fez história. Em posição oposta, desgraçadamente, alguns líderes latino-americanos, como Dilma Rousseff, perderam o bonde da história, ao renegarem a luta de libertação de seus povos e adotarem um modelo rentista de desenvolvimento. Feita a opção, ela só faz aprofundar um modelo herdado de Lula, “um desenvolvimentismo às avessas’, segundo o professor Reinaldo Gonçalves, marcado por um crescimento econômico pífio, associado a uma das mais baixas taxas de investimento do mundo. Em dez anos de governos petistas, o crescimento do PIB brasileiro é menor que a média dos países em desenvolvimento. Quanto à propalada melhora na distribuição de renda, trata-se de uma falácia que não se sustenta, em função do modelo escolhido. Por outro lado, a concentração de capital e riqueza e a desigualdade deram um salto exponencial. Enquanto isso, o desenvolvimento do país está comprometido com a desindustrialização, a exportação de produtos primários, a desnacionalização, a dependência tecnológica e a privatização do patrimônio público.

A experiência desenvolvimentista, do passado, baseada no fortalecimento do Estado e no nacionalismo, foi jogada na lata do lixo e deu lugar a uma rota de dependência econômica que impede o Estado brasileiro de garantir políticas sociais importantes e de combater a corrupção e o clientelismo no sistema político. Sobrou espaço apenas para as políticas assistencialistas, de cunho demagógico, sem um caráter mudancista das estruturas carcomidas da sociedade brasileira: são os programinhas compensatórios, um mecanismo perverso de coonestação de uma brutal desigualdade social. Com baixos indicadores sociais, o Brasil continua sendo um país periférico, sem importância no cenário internacional, onde os dirigentes não passam de vendilhões lesa-pátria.

*Médico no Rio de janeiro