O relativismo de Santa Maria

É inimaginável que alguém em sã consciência tenha ignorado o acidente da boate Kiss em Santa Maria. Todos nós estamos chocados pela vida de jovens na flor da idade, que foram ceifadas pela irresponsabilidade de um grupo de pessoas, tanto públicas como privadas, que participaram direta ou indiretamente naquele acidente. Passados mais de quarenta dias, finalmente têm-se protocolarmente a denúncia dos responsáveis que o sistema pericial levantou. Desde o início do acontecimento várias pessoas envolvidas em responsabilidade, prontamente foram dignas em reconhecer o “mea culpa” pelo acontecido. E estão sendo responsabilizados. Mas alguns usam o surrado refrão relativista, que não tem culpa porque jamais desejaram que aquilo acontecesse, numa cara cínica que com isto estaria lavada sua alma. Relativamente simples: não desejei, logo não tenho culpa. 

Tudo foi um azar, coisas do destino, fatalidade, desastre e outras palavras esquivas. Esquecem que morreram tragicamente 241 jovens, que poderia ser evitado se não fosse a incúria dos envolvidos e promotores do evento. 

Não era intenção maldosa do jovem da banda que acendeu o sinalizador pirotécnico, mas, o sucesso de sua apresentação, o era; não era intenção maldosa  dos promotores, mas, os lucros com o evento, o era; não era intenção maldosa dos responsáveis pela segurança do Estado, mas, o conforto de seus vencimentos, o era.

Agora que o laudo pericial veio à tona, estão todos fugindo como ratos de seu próprio naufrágio moral cada um empurrando a culpa para o outro.

Quantas horas de seu expediente, o prefeito  deve ter perdido no seu gabinete, fazendo articulações e fofocas políticas intermináveis, com o olho na próxima eleição, estabelecendo estratégias para vencer seus adversários. Temos convicção que em cima de sua mesa deve haver um calendário completo dos próximos eventos eleitorais para deputado estadual, federal, governador, senador e até da presidência da república. Para isto não há desídia, quando devia estar atento e preocupado com suas funções administrativas que a sociedade lhe confiou. É endêmico o mau atendimento da saúde, escolas abandonadas, crianças de rua perdidas, ruas esburacadas, alvarás de funcionamento vencidos e por ai vai. Mas, o cadastro de contribuintes do IPTU e outras formas de receitas para cobrar, funcionam como um relógio. Uma maravilha.

Agora vem com a maior cara de pau, como se não tivesse a mínima  responsabilidade pelo ocorrido. Senhor prefeito, quando houve a catástrofe do tsunami ocorrido no Japão em 2011, pela força da natureza, onde é impossível de se prever, funcionários públicos responsáveis pela tragédia das centrais atômicas de Fukushima, tiveram a dignidade e humildade de se ajoelharem em público se autopenitenciando, por não terem maior cuidado no seu planejamento. Veja bem, não há aparato humano capaz de deter as forças telúricas da crosta da terra. Mas a catástrofe da boate Kiss, foi um tsunami de irresponsabilidades, não causada pelas forças da natureza, mas por um bando de irresponsáveis, onde jovens na pureza de suas inocências, confiavam. 

Mas o orgulho, a pequenez, o delírio pelo poder, não lhe permitiu de se penitenciar perante a opinião pública; ao contrário, preferiu nesta última sexta-feira (21/03) responder em entrevista coletiva qualificando como “aberração jurídica” o fato de ter sido apontado na investigação policial de homicídio culposo e improbidade administrativa. Inclusive com a cara de pau de se julgar acima de qualquer responsabilidade.  Onde Vossa Senhoria estava, quando deveria estar atento a todos as ações administrativas inclusive sobre o alvará e outras obrigações de segurança de funcionamento da fatídica boate? É fácil tirar o seu da reta. Resposta simplista demais pela morte de 241 jovens da cidade. Parece que isto nada significa para uma mente doentia pelo poder.  

* Sergio Sebold – economista e professor Independente