Dúvidas e indagações de um professor universitário

Cada um de nós escolhe uma profissão. Nem sempre o fazemos por vontade própria mas eu decidi lecionar, mesmo vendo a dificuldade e o trabalho árduo de meus pais. Senti uma vocação na docência quando entendi que a educação era a arma fundamental para mudar a sociedade,tornando os que nos rodeiam, seres cientes de seus direitos, capazes de lutar e sobretudo podendo argumentar de forma mais embasada. Entendo que a educação formal faz parte de um processo constante de mudança e que ao longo do caminho, alguns vão perdendo o idealismo e se tornando meros repetidores do que aprenderam, repetindo frases e pensamentos alheios  e se tornando cansativos e sobretudo sem função social. Ensinar é num primeiro momento criar espaços de discussão e troca de experiências no seio do processo de aprendizagem. E  sair de ideias pré-concebidas e entrar num mundo de dúvidas e indagações, que podem sim trazer novos imputs para a relação ensino-aprendizagem.

Minha primeira indagação diz respeito ao que o aluno espera da Escola. Será que ele acredita nela ou se sente impelido a nela entrar para poder sobreviver,numa sociedade em que o ensino formal é fundamental e que outras habilidades são desconsideradas?Vejo muitos alunos perdidos nos corredores das faculdades, totalmente desmotivados ou extremamente agressivos com o que estão aprendendo,simplesmente por terem feito a escolha errada ou não saberem exatamente o que pretendem.Culpo ,um pouco as famílias que se descuidaram de um acompanhamento de seus filhos e acham que bons colégios e faculdades são a solução para a provável empregabilidade futura. É claro que uma boa instituição de ensino, que desenvolve projeto pedagógico inovador,que respeita seus professores e gestores pedagógicos,que mantém o aluno esclarecido de suas propostas caminha melhor.No entanto,o que se observa é que cada individuo concebe seu caminho acadêmico e não os alunos dos melhores colégios e faculdades que conseguem as melhores colocações.

Minha segunda dúvida é como reverter o quadro atual. Claro, que novas tecnologias, utilização das redes sociais, estudos de caso, visitas externas, conferencistas convidados, laboratórios de empreendedorismo facilitam mas é necessário a criação de conselhos de classe em todos os níveis, para que se possam dirimir dúvidas e fazer um acompanhamento individual de cada aluno, com reuniões quinzenais e novas orientações de carreira, caso se veja que a atual opção não está motivando. E bom lembrar que nem todo mundo precisa cursar uma faculdade e que nem todas as atividades precisam se transformar, em cursos tecnológicos. O ensino profissionalizante é uma forma de ingresso laboral, vista , em algumas classes, como algo para quem não deseja estudar. Ledo engano, percebem hoje bons salários e se enquadram em necessidades mais perto do mercado.É triste ver o número de alunos que ingressam em cursos superiores de direito,por exemplo,almejando apenas passar em concursos públicos e quase 70./. é reprovado no exame da OAB.

Tenho uma terceira indagação sobre o papel das autoridades regulatórias. Há uma exigência grande para professores com pós graduação stritco sensu, como forma de avaliar os docentes.Devo confessar,que por experiência pessoal,a maior parte de tais professores,apenas finalizam o mestrado e doutorado e param de se reciclar. Além de querem dar aulas sobre suas dissertações ou teses. Não deveriam também ser consultados os Lattes e as produções acadêmicas nos últimos 2 anos.Como se conceber um docente que não escreve,não pesquisa e não se recicla?Outro fator é o chamado ENADE, em que estudantes se submetem a uma  prova, para avaliar sua graduação. Como o resultado negativo em tal exame só prejudica a instituição de ensino, devolvem em grande parte, provas em branco,fora ainda que há notícia de que algumas universidades inscrevem apenas os melhores alunos no Exame e depois publicam anúncios de página inteira em grandes jornais e televisões, afirmando ser a melhor faculdade avaliada pelo MEC. Pergunto-me também como instituições públicas sem laboratórios específicos ou em ruínas recebem nota máxima dos avaliadores.

Tenho muitas outras indagações mas por hoje são suficientes. A vida de um professor é muito dura, ainda mais daqueles que acumulam funções de gestão ou de alguma chefia. São vistos como puxa sacos, alguns alunos pensam que tudo pode ser resolvido por eles e ignoram que no contexto atual da educação, decisões são tomadas pelas mantenedoras e vivem momentos de solidão acadêmica, quando devem tomar decisões estratégicas para a qualidade do ensino. Confio muito nas pessoas mas fui traído várias vezes por pessoas que ajudei muito. Sei que a vida de professor é assim: se você contraria o interesse de um aluno, de um colega ou de uma chefia, passa a ser tratado como um inimigo, esquecendo tudo o que fez anteriormente. Somos educadores e aprendemos muito com tais lições. Não nos deixamos abater nunca e continuamos caminhando, por um Brasil em que a educação será prioritária, que a legislação trabalhista será respeitada e que o professor terá um lugar privilegiado, não privilégio na verdadeira aceitação da palavra mas um lugar que lhe proporcione de alguma forma melhorar os indivíduos...

* Bayard Do Coutto Boiteux-professor universitário,escritor,pesquisador e preside o Site Consultoria em Turismo(www.bayardboiteux.com.br)