No conciliábulo

O verdadeiro rei conduz retamente a sua regência. Por isso Jesus Cristo é Rei dos reis, para quem todo aquele que pretende encontrar a Verdade é o legítimo fundamento. O paganismo não apenas prestou justas homenagens mas, acima de tudo, confirmou por meio dos três reis magos a suprema autoridade espiritual do Filho do Pai na modesta manjedoura. 

A ideia de Jesus Cristo sobre o “reino de César” (Mt 22, 21) restringe exemplarmente o campo de atuação do poder temporal. Mas traído é o “reino do Espírito” pelo cesarismo, específico ismo que também reflete-se narcisicamente através de grupos articulados subrepticiamente. E surge a revolta. Eis a tentativa de aprisionar a sabedoria proveniente do espírito dentro de um círculo restringido de pessoas. Jamais conseguir-se-á aprisionar o espírito, pois ele sopra onde quer. Logo, para que a tola pretensão de acolher somente para si, ou para poucos “eleitos”, a Santa Sophia? 

Na verdade, aprisiona-se somente o espírito demoníaco, e em ritos mágicos. Entretanto, o “aprisionado”, como um legítimo parasita, consome o “aprisionador” devido ao deslumbramento deste para com a possessão demoníaca ocorrida dentro de seu corpo no rito. De fato, o homem satisfeito com as suas possibilidades inerentes não necessita de “revoluções” para viver. Aqui revelam-se nitidamente os efeitos da soberba exposta em Lúcifer, ou seja, a queda do anjo mais belo no abismo por rebelar-se contra um desígnio divino. Ora, se o espírito provém de Deus, e sendo aquele velado ao anjo caído, não resta a este senão a busca da sua fonte de alimentação na energia sexual do objeto que serviu de motivo para a sua inveja – o ser humano. O que não deixa dúvidas sobre o obsessivo desejo do anjo caído de adquirir o maior número de almas – pois agraciado foi o homem com uma alma para que através do coração possa sentir a presença divina – para jogar na face de Deus a legião por ele levada a cabo. 

Caim também foi banido por Deus, exilado no Oeste, onde morre o sol. Semelhante a Lúcifer, nele também a inveja atuou, sendo o primeiro homem a ter derramado sangue humano na terra. Vale lembrar que a rebelião luciferina é substituída – na ação maléfica dentro do mundo – pela satânica inversão de valores, ficando o status quo totalmente prostrado a tal simbólica representada por Satã nos obscuros períodos da Humanidade, apocalíptica época exemplarmente descrita por João. 

Equivocam-se também aqueles que acreditam ter sido Prometeu – como Lúcifer – um devotado amigo dos mortais. Paul Diel em sua obra O simbolismo na mitologia grega relembra que Prometeu é descendente de Titã – que cria o homem enquanto ser material, enquanto Zeus cria o homem enquanto ser espiritual – logo, agirá somente por meio de um ato equivocado, ou seja, o roubo do fogo olímpico. 

Rotunda a decadência humana tornou-se porque ancorada essencialmente no reino deste mundo. Queda que impossibilita ao homem inclusive a vivência da comunhão familiar com seus co-sanguíneos, afinal, na conjuração subterrânea já tinha ele entregue algumas gotas de seu sangue, símbolo vital da existência humana – especialíssimo extrato, nas mefistofélicas palavras goetheanas – no terrível pacto para se obter a vitória horizontal. Sim, ainda existem aqueles que riem de Nazaré, que, não fortuitamente, são os mesmos que menoscabam a própria visão vertical por causa da falsa sensação de segurança proveniente das conquistas obtidas pelo “reino de César”. 

*Roberto Muñoz é escritor.