Profetas em tempo de mudança

Quarta-Feira de Cinzas, a Igreja Católica lançou a Campanha da Fraternidade/2013: “Fraternidade e Juventude – Eis-me aqui, envia-me!” (Is 6,8). Na oração da Campanha, uma frase sugestiva: “Ser profetas em tempos de mudança”. 

Que significa hoje ser profetas em tempos de mudança? 

Dom Damasceno, presidente da CNBB e cardeal eleitor do próximo papa, disse que os cristãos devem pedir a Deus que os cardeais “possam também estar abertos aos sinais dos tempos”.  O jornal pergunta: “O que significa sinais dos tempos para o senhor?” (FSP, 25/02/13, A16). Dom Damasceno responde: “Significa mudanças profundas que todos nós experimentamos. Estamos falando hoje de uma mudança de época e não uma época de mudanças. Não são mudanças superficiais, mas que atingem a pessoa, os seus valores, o seu modo de viver, o seu estilo de vida, a sua maneira de julgar as coisas e de se relacionar com Deus, com o próximo, com a natureza”. Para dom Damasceno, a resposta aos sinais dos tempos é “uma Igreja solidária com os pobres sobretudo, que esteja a serviço do mundo e não o mundo a serviço da Igreja”. 

O texto da Campanha da Fraternidade (CF) fala do protagonismo dos jovens: “O protagonista é aquele que participa da sociedade e da Igreja de modo a influir significativamente nas transformações que fazem o mundo melhor”. E fala em protagonismo que dê sentido à vida, protagonismo que gere comunidade, protagonismo e experiência religiosa, protagonismo e compromisso na sociedade, protagonismo e a justa relação entre fé, razão e ciência. 

O protagonismo na sociedade, segundo o texto da CF, significa que todas as organizações eclesiais juvenis são convocadas a se engajarem plenamente nos trabalhos de edificação de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.  “A juventude é o tempo propício à formação para a cidadania. Sugere-se a participação nos Conselhos de Juventude, “recentemente criados no Brasil. Tais Conselhos buscam defender os direitos dos jovens e acompanhar as Políticas Públicas que os favoreçam”. 

Diz o livro-texto: “Somos profetas quando animamos quem está fazendo o que é certo e quando protestamos e resistimos a propostas que prejudicam os direitos das pessoas”.  

Os jovens estão hoje no turbilhão dos tempos de mudança, no centro das crises, seja do mundo, da economia ou da própria Igreja. 

O 1º Encontro de Juventudes da Rede de Educação Cidadã (Recid) diz que a América Latina vive hoje um contexto de disputa de projetos. “Neste contexto assumimos a defesa de um projeto político para o Brasil identificado com a integração soberana dos países latino-americanos, com realização de reformas estruturais (reforma política, reforma urbana, reforma agrária, democratização da comunicação, etc) que beneficiem o povo brasileiro. Chamamos este projeto de Projeto Popular para o Brasil”.

Em meus tempos de jovem e de Pastoral de Juventude, anos 70 e 80 do século passado, as palavras-chave eram: mudança, revolução, esperança, transformação, sonho, utopia. Os verbos: coragem de falar, participar, anunciar. 

Não há de ser diferente hoje, anos 2000, terceiro milênio, 2013. A crise do capitalismo neoliberal na Europa, a crise na Igreja Católica levando à renúncia do papa colocam a necessidade e a urgência do anúncio do novo. Hora de dizer: “Eis-me aqui, envia-me.” Hora de ser profeta, de soltar o grito, de ter coragem. 

Como disseram os jovens da Recid na Carta final do 1º Encontro: “Após quatro dias de muita formação, mística e animação, concluímos que, onde estivermos, nossa principal luta é a defesa da VIDA. Voltaremos para nossos estados com o compromisso de partilharmos esta vivência junto aos companheiros e companheiras que lá ficaram. Acreditamos que a garantia de uma vida digna para as juventudes do Brasil se efetiva pela construção de um Projeto Popular que seja fruto da ampla mobilização do povo. Hoje, temos a certeza de podermos dizer: os desavisados que se cuidem, pois na nossa voz já se anuncia a manhã desejada!”.

Como diz um dos programas da Secretaria Nacional da Juventude: Viva a JUVENTUDE VIVA!

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.