Apoio envergonhado

Além da demagogia dos programinhas compensatórios, que nada resolvem para o nosso povo, o governo Dilma fracassa em todas as políticas sociais e retrocede na política externa. Ao submeter a nossa diplomacia aos desígnios do Departamento de Estado americano, a presidente Dilma se compromete com o isolamento do Irã e da Síria do concerto das nações e com as sanções econômicas que lhes são impostas de maneira unilateral, ao arrepio do direito internacional. O pano de fundo do compromisso imoral seria o desrespeito aos direitos humanos nesses países, no dizer tendencioso de organizações inconfiáveis financiadas pelo governo americano. 

Paradoxalmente, Dilma, tão preocupada com as supostas atrocidades dos governantes sírio e iraniano, emudece a respeito das torturas em Guantánamo e da sordidez do sistema penitenciário americano. Nunca o Itamaraty foi tão subserviente. Ainda recentemente, o presidente americano encomendou ao Congresso de seu país uma lei que define como o Brasil deve tratar a questão da tríplice fronteira e conduzir suas relações econômicas com os países que ousam contrariar os EUA, numa demonstração clara da ingerência do direito interno americano no nosso direito à autodeterminação, que contou com o silêncio cúmplice do ministro Antonio Patriota. Ao aceitar essa decisão, o Brasil se colocou na condição vergonhosa de olheiro de Obama, na América do Sul.

Daí se vê que a hegemonia americana está em curso, embora o arrefecimento do tom onipotente do governo ianque, após a queda das Torres Gêmeas, episódio violento e doloroso, que desmistifica a visão a-histórica de alguns acadêmicos que apostam na irreversibilidade desta hegemonia. É necessário jogar por terra esse mito. Todavia, não podemos subestimar o poder de fogo de tio Sam, pois, em setembro de 2011, a águia americana gritou de dor, perdeu algumas penas, mas preservou as garras afiadas e o olhar agudo das aves de pilhagem, pronto a definir os territórios que julgar do seu domínio. Hoje, no entanto, já não se pode falar na ausência de uma contraposição à vocação dos EUA a povo eleito, gestor dos destinos do planeta. Por outro lado, a luta pela emancipação do jugo norte-americano saiu do campo da retórica e, por exemplo, para os venezuelanos está se tornando uma realidade, tanto mais concreta, na medida do apoio e solidariedade dos povos irmãos latino-americanos. 

Ao que parece, somente Dilma não acredita nessa possibilidade e, muito menos, nas debilidades da hegemonia norte-americana, condição indispensável para se traçar uma estratégia rumo a um mundo pós-neoliberal. Ao contrário, finca os pés no século 20, superestimando a hegemonia dos Estados Unidos e, com isso, negando a superação de um mundo unipolar e a construção de um novo mundo multipolar. Carecendo de uma visão de estadista, Dilma conduz a hegemonia americana à superioridade militar e econômica, ignorando a importância do seu aspecto ideológico. Sem coragem para o enfrentamento, desperdiça a oportunidade de, pelo menos, combater a disseminação exagerada e abusiva dos valores americanos, em nosso país, um processo de aculturamento em massa, um verdadeiro atentado ao caráter nacional do povo brasileiro. Compromissada com a nova ordem internacional, Dilma não considera, sequer, o combate a esse traço hegemônico de conteúdo alienante.

Enquanto isso, ao contrário do Brasil, a Venezuela busca um projeto contra-hegemônico, de emancipação nacional, que permita alcançar uma melhor distribuição de renda e uma maior justiça social, não obstante as dificuldades para a sua construção. Sob o comando de Hugo Chávez, firma-se o compromisso com o nacional, o popular e a soberania, debaixo da influência dominadora americana e das críticas iradas da esquerda acadêmica, aliada da Igreja Católica reacionária, da imprensa golpista e do sionista Henrique Capriles. 

Apesar da sabotagem, o projeto bolivariano coloca o petróleo venezuelano a serviço do seu povo, se consolida diante das grandes massas, marca uma unidade indelével entre civis e militares e proporciona ganhos sociais importantes. O seu ponto alto é a rejeição ao mundo unipolar e a integração latino-americana, na certeza de que somos um só povo, vivendo em um único continente. Por essas razões, na sua quarta disputa eleitoral, Chávez derrotou, de maneira avassaladora, o candidato dos gringos. Infelizmente, após a vitória, teve que submeter-se a uma nova cirurgia, o que o impediu de ser empossado em data previamente determinada. Essa ausência temporária reanimou a direita enlouquecida, calada pelas urnas, que viu a oportunidade de apear Chávez do poder com o apoio externo. Diante dessas maquinações golpistas contra um presidente legitimamente eleito, só caberia aos líderes latino-americanos prestar-lhe uma irrestrita solidariedade, materializada com as suas presenças no dia oficial da posse. 

No entanto, o maior país da América do Sul não se fez representar. Temendo a reação de Obama, Dilma amarelou e não foi a Caracas. Mais tarde, lembrando-se de que as multinacionais brasileiras auferem grandes lucros na Venezuela, mandou seu assessor para relações internacionais ligar para o vice-presidente Nicolás Maduro e hipotecar solidariedade a Chávez. Esse apoio envergonhado gera desconfiança, nos nossos vizinhos, e permite que o espectro do golpismo volte a rondar a América Latina.


*Thelman Madeira de Souza é médico.