Ídolos sem conteúdo

Houve um tempo, sei que bastante distante mas que não nos deixa esquecer, que tínhamos uma série de nomes, pessoas idolatradas por uma grande camada de nossa sociedade. E elas estavam em vários segmentos, e a admiração contagiava não apenas os mais jovens, geralmente os mais suscetíveis a aceitar determinadas situações, costumes e até modismos.

Nesse tempo víamos na incipiente televisão grandes nomes do rádio que, se adequando ao novo meio de comunicação, ainda conservavam o fascínio e mantinham o prestígio ainda em alta. O mesmo acontecia na política, em que pese o surgimento de alguns nomes que, depois, marcariam presença positiva ou negativa, mas que não deixaram de arrastar e motivar multidões.

No esporte, tínhamos a campeoníssima Maria Ester Bueno no tênis, Eder Jofre no boxe, Pelé, Garrincha e outros nomes do futebol; no automobilismo Emerson Fittipaldi. Na música, a Bossa Nova trazia nomes já conhecidos, alguns consagrados, mas instigava os novos talentos, e a consequência foi o surgimento de uma geração que encantou gerações, principalmente no período mais crítico de nossa sociedade, o regime militar.

Foi exatamente durante o regime militar que vivemos o período áureo de nossa música, quando, para burlar a censura e para dizer o que não era permitido, o verdadeiro artista teve que utilizar em toda  plenitude a definição exata de sua função: “artista é aquele que fala para o futuro a realidade do seu cotidiano; aquele que canta a sua aldeia”.

Se usarmos, hoje, essa definição, infelizmente teremos muitos poucos artistas a aplaudir. Sim, porque a nossa realidade não é a do cidadão de microfone em mãos, cantando coisas a que o povo, como um todo, jamais terá acesso. Pessoas jogando nos ouvidos da população uma realidade muito distante do que a sociedade enfrenta no dia a dia. Predomina a futilidade, a mensagem é falsa, plástica, artificial, mentirosa.

Se na arte, na música principalmente, temos esse quadro, no esporte não é diferente. Meia dúzia de jovens, privilegiados por um pouco de habilidade, algo incipiente se comparado ao que já tivemos, são idolatrados, tratados como reis em um país que nesse campo tem pouco ou quase nada a apresentar.

Embalados por intenso trabalho de marketing, falsos ícones desfilam todos os dias pelas telas da TV, incentivando o consumismo e vendendo produtos atrelados à sua imagem, sem responsabilidade alguma. E, nesse embalo, a sociedade vê-se compelida a consumir o carro, a cerveja, o aparelho eletroeletrônico, o plano de saúde, o remédio para emagrecimento, o cigarro, chuteira colorida, o shampoo.

Fabricamos ídolos com a mesma velocidade com que acionamos o controle remoto da televisão, e vamos em busca de novos atrativos. Mas, infelizmente, eles são poucos. A pobreza de conteúdo esbarra na miséria de autênticos talentos, e a vingança  não vai além de um apertar de botões. A sequência de nulidades despejadas sobre uma sociedade com poucas opções e muita avidez, o que a coloca na simples condição de consumidora de produtos culturais e esportivos de gosto duvidoso.

* Vitor Sapienza, deputado estadual (PPS) e economista, é presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia e Informação e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo. - www.vitorsapienza.com.br