Paz: desejo maior para 2013

Não por nada o ano novo começa com a celebração do Dia Mundial da Paz. Pois não há, hoje, em meio à violência que o mundo vive e padece, desejo que brote com mais força de todos os corações e bocas, do que o desejo da paz. Em seu discurso para essa celebração, o papa Bento XVI diz com pertinência e razão: “Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem sucedida” (nº 1). E continua afirmando que o desejo de paz é essencial e constitutivo da condição humana.  

Além disso, corresponde a um princípio ético fundamental, qual seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, de cumprimento e plenificação dos desígnios divinos para os seres humanos. Sendo ponto inegociável do projeto do Reino de Deus que Jesus de Nazaré anunciou à Igreja e que esta tem a missão de levar a toda a humanidade, a paz é uma bem-aventurança. Por isso, faz parte do Sermão da Montanha, carta magna do Reino, onde o mesmo Jesus dá aos seus discípulos orientações específicas de atitudes e comportamento com vistas a como devem viver e atuar neste mundo.  

Refletindo sobre a bem-aventurança que se refere explicitamente à paz e sua construção e que é o lema do Dia Mundial da Paz, - “Bem-aventurados os construtores da paz” (Mt 5,9) - Bento XVI conclui “que a paz é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana” (nº 2). Ou seja, é dom dado de graça e imerecidamente.  Jorra do amor sem fim e gratuito com que Deus nos ama desde sempre e para sempre. Mas ao mesmo tempo, é tarefa, é missão.  Deve ser  construída, e não acontecerá neste mundo se nesta construção não pusermos todo o nosso empenho e o melhor de nossos desejos e forças. Assim é concebida a paz na Bíblia desde o Antigo Testamento. 

É comum nos países do Oriente Médio ouvir, ainda hoje, uma tradição que vem de muito antes, das raízes mesmas da vida e da cultura destes povos: a saudação “shalom”, que quer dizer paz em hebraico.  É a maneira que os israelitas têm de se saudar. O mesmo acontece com os árabes, que usam o  termo salam, que tem o mesmo significado:  “paz”. Chega a ser incrível que em uma região na qual a paz está totalmente ausente, para não dizer quase perdida numa guerra sem quartel, a saudação costumeira do povo continua sendo desejar a paz. Por ser tão difícil e ameaçada, a paz na Bíblia sempre foi considerada um bem extremamente precioso.  

A raiz hebraica Å¡lm (da qual deriva shalom) é muito antiga e comum a todas as línguas semitas e expressa não só uma ausência de guerra mas uma ideia de perfeição, de “estar completo”, “estar perfeito”, “estar terminado”. Portanto, quem vive no shalom está com saúde, sente-se bem, encontra-se em um estado de plenitude.  No texto hebraico do AT, portanto, a paz tem uma ampla gama de significado, que ultrapassa o meramente político-bélico. O significado teológico de paz como bênção e salvação de Deus está presente na maior parte dos textos.  

A tradução grega  traduziu  shalom por eirene, o que enfraquece um pouco seu significado, já que eirene remete a uma ideia de ataraxia, de ausência de movimento e conflito, o que não corresponde à paz bíblica.  Em todo caso, destaca-se na Bíblia judaica o significado da paz como fruto do cumprimento da vontade de Deus.  Como diz 2Mac 1,4: “(Que Deus) abra o vosso coração à sua lei e a seus preceitos e vos conceda a paz”. A paz é, aqui, apresentada como o  resultado da observância da Torah e, por conseguinte,  indica “salvação” em um sentido bem teológico e dinâmico.

O Novo Testamento, na história da infância de Jesus, o apresenta  como o portador da paz ao mundo por excelência. Em Lc 2,14, por ocasião de seu nascimento, os anjos anunciam: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados”. 

No nascimento de Jesus a paz, em seu significado pleno de salvação, de superação de conflitos e de vitória sobre o mal e a injustiça, é oferecida aos seres humanos.Em outros textos do Novo Testamento, como nas cartas de Paulo, a paz é sempre unida à graça, mostrando que para o apóstolo a verdadeira paz era proveniente da graça de Deus que recebemos em Jesus Cristo. Para Paulo, a paz é um fruto do Espírito (Gl 5,22; Rm 14,17), que é dado por graça mas que se tem que trabalhar para construir e fazer crescer. Já em Tg 3,18 encontramos a solene afirmação: “O fruto da justiça semeia-se na paz para os que constroem  a paz”. Entende-se aí justiça como a conduta humana justa como resposta à vontade de Deus, uma conduta de acordo com as exigências de Deus. Quem constrói a paz está semeando os frutos da justiça, no sentido de obediência às exigências divinas.

Por isso, neste ano de 2013, somos convidados a colocar a paz verdadeira, que é graça de Deus e fruto da justiça, como prioridade de nossa vida.  E para isso – lembra-nos o papa – “é preciso renunciar à paz falsa, aquela que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesma, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança” (nº 7).

Feliz ano novo para todos nós, cheio de justiça e de paz.  


* Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e de 'Simone Weil - A força e a a fraqueza  do  amor' (Ed.  Rocco) entre outros livros.  -  [email protected] -agape.usuarios.rdc.puc-rio.br