Economia brasileira e mundial - Haverá aprofundamento da crise em 2013?

A crise financeira internacional, iniciada em 2007, afetou consideravelmente os bancos hipotecários, tanto  nos Estados Unidos da América quanto na Zona do Euro. Inúmeras medidas de política econômica foram tomadas com o objetivo de se evitar uma quebra generalizada de bancos. Nos Estados Unidos da América o governo contou com o Federal Reserve System para dotar de liquidez o sistema bancário americano. Na Europa, entretanto, devemos lembrar que os países abriram mão de seus bancos centrais e delegaram ao Banco Central Europeu a incumbência de dar liquidez às transações econômicas na região, mas não aos bancos.

Assim, quando a crise atinge os bancos hipotecários da Irlanda, de Portugal, da Grécia e da Espanha, os respectivos governos somente podem lançar mão do único instrumento da política econômica disponível, qual seja o aumento no endividamento soberano para dar liquidez a seus bancos, de passagem, o instrumento mais ineficaz para debelar a crise.

O efeito perverso do endividamento soberano pode ser melhor observado se tomarmos como exemplo a Espanha. Em 2007 a dívida soberana da Espanha se situava em 35% do PIB, porém ao ajudar os bancos hipotecários a dívida pulou para cerca de 85% do PIB, em 2012; a taxa de juros paga em 2007 estava em torno de 1,6% ao ano, porém, com o aumento  do risco, os investidores passaram a exigir taxas que alcançaram  7,5%, em meados de 2012. Como se pode notar, para honrar o pagamento dos juros o governo passou a efetuar cortes nas áreas sociais, afetando conquistas que os trabalhadores haviam obtido desde que o país voltou à democracia, em 1977.

A crise na Zona do Euro parecia ter preservado a Alemanha, uma vez que a maior potência europeia vinha crescendo nos últimos anos: em 2010 o PIB cresceu 4,2%, em 2011 a variação percentual foi de 3%. Entretanto, segundo Relatório do Bundesbank, a economia alemã está encolhendo muito rapidamente em 2012 e espera-se um crescimento do PIB em torno de 0,7% neste ano. O Bundesbank aponta como responsáveis pela perda de dinamismo da economia alemã, de um lado, o moderado crescimento dos Estados Unidos da América e, de outro, a continuidade da desaceleração da economia da Zona do Euro bem como, o menor crescimento que está sendo registrado pela China, em países da Europa Central e na Rússia.

Diz o Bundesbank que a economia alemã registrou um crescimento de apenas 0,2% no terceiro trimestre de 2012 e que deverá apresentar um crescimento ainda menor no último trimestre de 2012. Ou seja, o cenário que se vislumbra remete para um aprofundamento da crise na Zona do Euro, isto porque a maior potência econômica europeia está também sendo envolvida pela crise econômica mundial.

Tanto na Espanha quanto em Portugal, Grécia e Itália os trabalhadores têm saído às ruas reclamando da política de cortes sociais levada a cabo pelos respectivos governos. Alegam que existem outras variantes de política econômica e que os governantes devem utilizá-las. Os sindicatos, por sua vez, em suas ações parecem indicar que uma delas seria o calote generalizado na dívida soberana. Esta, contudo, não é uma boa alternativa, pois ela foi aplicada em 1982 e 1986 no Brasil, e a economia brasileira permaneceu estagnada até meados dos anos 90. Alternativa mais plausível, mas que não conta com as simpatias do governo alemão, se constitui na possibilidade de o Banco Central Europeu comprar dívida soberana, neste momento da Espanha — um total que beira 200 bilhões de euros no curto e médio prazo.

Do nosso ponto de vista, a melhor alternativa se constitui em um grande acordo nacional, em cada um dos países envolvidos. Devemos lembrar que logo após a ditadura militar, em 1977, a Espanha realizou um pacto social, conhecido como Pacto de Moncloa, que abriu o caminho para o crescimento econômico do país no médio e longo prazo: de um lado, os trabalhadores abriram mão de reajustes salariais acima das taxas de inflação, e, de outro, os empresários se comprometeram a investir na modernidade de suas empresas. Apesar das desavenças existentes entre os partidos políticos na Espanha, acreditamos que é possível uma conciliação nacional que, de um lado, evite o separatismo de regiões e, de outro, aplaine o caminho para que a dívida soberana, em relação ao PIB, decline no médio e longo prazo.

*Manuel Enriquez Garcia, economista, é presidente do Corecon-SP, da Ordem dos Economistas do Brasil.