Semana mercosulina e latino-americana

Esta semana – 3 a 7 de dezembro - respiramos Mercosul, América do Sul e América Latina por todos os poros e veias em Brasília. 

Segunda e terça, Seminário Internacional organizado pela Secretaria Geral da Presidência da República, que até rendeu debate na mídia sobre transparência e participação entre o ministro Gilberto Carvalho e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na comparação entre os governos Lula e Dilma e os governos FHC. Aliás, pontos para Gilberto Carvalho. O tema do Seminário: Desafios da construção da democracia no Mercosul. 

Quarta e quinta, Cúpula do Mercosul Social e Participativo, com presença de centenas de lideranças sociais e militantes de todos os países. Por fim, sexta, a Cúpula de Chefes de Governo do Mercosul, em realização quando escrevo. E a grande e feliz novidade: a Venezuela participa oficialmente pela primeira vez do Mercosul, mostrando que ele não é integrado apenas pelos países do Sul mas também por países do Norte sul-americano. Bolívia e Equador devem integrá-lo em seguida e o Paraguai, depois das eleições de 2013, redemocratizado, voltará ao seu convívio. 

Quem já tem alguns anos a mais nas costas, sabe que nem sempre foi assim. Ou melhor, nunca foi assim. Quando a democracia floresceu na América do Sul e América Latina? Quando países soberanos buscavam seus próprios caminhos sem pedir licença para o grande irmão do Norte? Quando governo, sociedade, movimentos sociais, ONGs discutiram experiências de participação social, de educação popular, sem ter o tacão repressor acompanhando os acontecimentos? Quando governos olharam com prioridade os mais pobres e trabalhadores? 

É certo que não se fez (ainda) a revolução com que muitos de nós sonhávamos e sonhamos, como, aliás, também o grande Niemeyer, falecido esta semana, a vida toda comunista, que também sonhava com a unidade latino-americana. Por sinal, Niemeyer foi homenageado pela Cúpula Social do Mercosul, por coincidência acontecida no belo espaço do Museu da República, abóbada cheia de curvas, uma de suas últimas obras a ser construída em Brasília. 

Talvez não seja demais dizer que na América do Sul e América Latina está hoje a esperança do mundo. "Pela primeira vez na história", diria o ex-presidente Lula, que mandou uma videomensagem para a abertura da Cúpula Social. Ou onde há hoje atores sociais e sociedade civil pensando e praticando um projeto de desenvolvimento que enfrenta as crises do capitalismo que assolam o mundo europeu? Onde as vozes dos de baixo, na palavra de Florestan Fernandes, não só protestam, como em outros tempos ou como hoje na Europa, mas efetivamente constroem o novo e apontam "um outro mundo possível"? Onde governos e movimentos sociais dialogam, mesmo com não poucas divergências? 

(Sílvio Caccia Bava, do Instituto Pólis e editor do Le Monde Diplomatique, me dizia no seminário sobre democracia no Mercosul: “Não existem hoje no mundo exemplos iguais como esses do Brasil, onde um ministro vai para um debate com pessoas da sociedade de peito aberto ou onde membros do governo e movimentos sociais sentam na mesma mesa em pé de igualdade, para buscar soluções ou para se ouvirem no que têm de propostas divergentes. Isso não acontece em outros lugares”). 

Os desafios são muitos e não poderia ser diferente. Artur Henrique, ex-presidente da CUT e hoje responsável pelas suas relações internacionais, alertou para a desigualdade. “A América Latina continua sendo a mais desigual do mundo”. 

Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidenta Dilma, falou: “Não poderá haver democracia se não estiver fortemente ancorada na participação social. Aumenta, pois, a responsabilidade de quem está em governos democráticos, progressistas e populares”. 

Os tempos são de crise, mas também são de esperança. Não são as tropas guerrilheiras a apontarem luz no horizonte, como em outros tempos (As Farc até estão depondo as armas e apostando na disputa democrática e institucional). Mas são homens e mulheres, jovens, quilombolas, indígenas, catadores de material reciclável, trabalhadoras e trabalhadoras, intelectuais orgânicos a construir a democracia com participação social e popular, a exigir direitos dignidade, igualdade e justiça, através da mobilização e da luta, do trabalho de base organizado, da educação popular. No debate, no diálogo, surge um novo pensamento que busca hegemonia para consolidar um projeto de desenvolvimento democrático e popular. 

A América do Sul, a América Latina, através de seus instrumentos – Mercosul Social e Participativo, Unasul, Alba, Banco do Sul –, e na integração social e cultural, não só econômica e comercial, no diálogo entre movimentos sociais, na construção do novo com a economia solidária, as redes de troca de experiências e práticas comuns, dizem, mostram, confirmam que o sonho não acabou. Uma nova sociedade pode ser construída. Melhor ainda, está em construção. Como diria o cantor, "depende de nós".

* Selvino Heck é assessor especial da Presidência da República.