Não é bem assim

Deus fez-se um de nós para que nós nos tornássemos no que Ele é, propósito inacreditável que valoriza infinitamente a vida humana. Faz do dom de si a atitude recíproca ou a contrapartida do acolhimento do outro.

A vida cristã ganha corpo a partir da nossa humanidade recebida numa linguagem, em costumes, em tradições culturais. Não nos obriga a alijar esse legado para entrar num sistema já feito e exterior de obrigações e de práticas. Penso mesmo ser impossível estabelecer uma regra de prática correta.

Apenas na condição de viver nossa humanidade sem reticências nem medos é que compreenderemos o que concretamente nos compromete a fé cristã. Esta implica, pelo menos, infinito respeito pelos valores e pelas instituições mediante os quais a humanidade se constrói e se afirma.

O desmantelamento das antigas ordens sociais quando da Revolução Francesa avançou a par com a exaltação dos direitos do homem e do cidadão. Como bem analisou Tocqueville, este princípio progressivamente ocasionou toda sorte de consequências em todos os domínios, o religioso inclusive.

Talvez a principal consequência seja efetivamente a instauração de regimes democráticos: estes podem assumir formas institucionais extremamente diversas, mas supõem sempre pelo menos duas coisas. De um lado, fundam-se na ideia de que cidadãos iguais estão em condições de tratar eles mesmos de seus próprios assuntos; de outro, desconfiam da acumulação do poder em suas mãos. 

Daí que a moderna sociedade democrática busca institucionalizar os conflitos que a atravessam. Parece que atualmente o sentido da vida coletiva se comporta como um título de propriedade, uma espécie de fato ou realidade que, uma vez aparecido na história, teria estatuto autônomo garantido.

Não é bem assim. Somos confrontados com uma realidade que põe no centro a responsabilidade do homem. O que acontece não depende de um destino cego nem do capricho dos deuses, mas daquilo que o homem faz ou não faz. Em gestos simples, como maneira de votar, comportamento para com o dinheiro, concepção da educação dos filhos, atenção aos fenômenos das novas pobrezas.

 

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.