A humanização do trabalho médico

O descompromisso com a ética reacende o debate sobre a formação e a atuação dos médicos. Passar em revista essas questões é premissa de uma análise isenta da relação médico-paciente, alvo de críticas superficiais, nos congressos médicos, na medida em que se enfatiza o papel de uma tecnologia fora de controle, típica do atual modo de produção capitalista, na desvalorização desta relação, em detrimento do produto cultural mais importante da humanidade, a filosofia, o único capaz de uma crítica radical. 

Ora, em que pese a tecnologia estar a serviço do capital, ela traz enormes benefícios aos pacientes, se utilizada num contexto de preocupação com o social. É fato, também, que seu progresso avassalador, por si só, não explica a virtude do caráter. Por conseguinte, quando se trata da maneira habitual de ser e de se comportar, seja de um médico, seja de um paciente, estamos a tratar com hábitos e tradições que vêm de longe, e já analisados, com rigor filosófico, pelos pensadores gregos. Logo, é da Grécia Antiga que devemos puxar o fio da meada que aponta o caminho correto das reflexões sobre a formação ética dos médicos, o que nos leva, obrigatoriamente, a Hipócrates.

O resgate dos princípios hipocráticos, consagrados em cinquenta tratados, o Corpus Hippocraticum, inicialmente, ajuda a entender como nasceram o médico e a medicina científica. Foi, a partir da mais famosa escola médica da antiguidade, na cidade de Cós, sob o comando de Hipócrates, que a medicina alcançou o seu mais alto nível, isto é, deixou de ser uma prática mágico-religiosa, da responsabilidade dos sacerdotes, para ganhar o status de “ciência”, ou seja, de conhecimento perseguido com um método preciso.

Contudo, para se compreender a mudança de uma prática sacerdotal, ensinada pelos deuses gregos, para uma prática médica, fundada em regras e nexos de causa e efeito, é necessário saber que isso só foi possível com a mentalidade científica, criada pelos primeiros filósofos da natureza. Essa é uma constatação que não pode ser apagada. Em outras palavras, a ciência médica só pôde nascer, por causa do racionalismo etiológico da filosofia da natureza. Sem a filosofia grega, não haveria medicina, pelo menos nos moldes propostos por Hipócrates.

Marcante é que, em curto espaço de tempo, a medicina hipocrática passou de devedora da filosofia a inspiradora da especulação filosófica, sobretudo a ética socrática. Não é de surpreender tal prestígio, diante do vigoroso racionalismo que impregnava a obra de Hipócrates, capaz, inclusive, de enxergar a ligação entre as doenças e o caráter dos homens, bem como definir com lucidez a estatura ética do médico, a sua chancela moral. Essas teses se expressam numa proposta simples, O Juramento de Hipócrates, que lembra o médico de que o doente não é uma coisa, mas um valor e, portanto, deve merecer do primeiro uma conduta moral adequada.

Infelizmente, este compromisso de grande conteúdo ético, com frequência, é rompido no dia da formatura dos futuros esculápios, cuja maioria está mais preocupada em pegar um diploma legal que lhes garanta o exercício da mais nobre das atividades, ainda que careçam de uma melhor formação técnica e moral. Com efeito, o tempo urge, e é preciso ganhar dinheiro, mesmo que os empregos oferecidos, para tal, retratem a degradação humana e a putrefação das instituições públicas e privadas de saúde, corrompidas por governantes decadentes, adeptos da política malandra e empresários gananciosos. Do setor privado, hoje, dominado pelos planos de saúde, brotam o desrespeito aos contratos e os cortes de custo, do setor público, desabrocham a corrupção e o caos ceifador de vidas.

O desinteresse dos médicos pelas questões éticas é alienante do seu papel na social, além de afastá-los de qualquer mobilização em favor da sociedade a que servem e da sua valorização. Nesse aspecto, cabe boa parcela de responsabilidade aos órgãos de representação da categoria médica, preocupados com interesses outros e despreocupados com os rumos da atividade médica em nosso país. Não entendem que o exercício da medicina precisa ser humanizado, sob pena de caminharmos, médicos e pacientes, para um “suicídio coletivo”, ato extremo de alienação e de renúncia a uma existência forçada, afastada do seu semelhante. Assim sendo, somente a filosofia, na sua busca incessante pela essência dos fundamentos, seria capaz de apontar o meio de uma convivência mais humanitária.

De posse desse diagnóstico sombrio da atividade médica, só nos resta um tratamento de choque que passa, necessariamente, pela educação médica, através da introdução, no currículo de medicina, do estudo da filosofia e das ciências sociais, enriquecendo, assim, o convívio do médico com a condição humana, isto é, a totalidade das atividades e capacidades humanas, no dizer da filósofa Hannah Arendt.

 

* Thelman Madeira de Souza é médico. -  [email protected]