Aids: três décadas depois

Já se passaram trinta anos desde que o primeiro anúncio da descoberta de um novo vírus foi feito por pesquisadores franceses, fato que repercutiu em todo o mundo e nunca mais seria esquecido. No Dia Mundial de Luta contra a Aids, 1° de dezembro, é sempre importante relembramos a trajetória da epidemia e o futuro que se descortina sobre os portadores do vírus a cada nova descoberta científica.

A Aids extrapolou as fronteiras, e há muito tempo não é mais uma epidemia, mas sim uma pandemia, porque está disseminada em todos os continentes. Acredita-se que existam mais de  33 milhões de infectados no mundo todo, a maioria destes nos países pobres do continente africado, assolado pela infecção desde o início. Só no Brasil estima-se que a doença leve ao óbito cerca de 12 mil pessoas por ano.

O auge da epidemia foi nos anos 80 e 90, com a disseminação do vírus em várias classes e grupos sociais. Inicialmente considerada como uma doença de homossexuais, o vírus demonstrou-se em pouco tempo irrestrito a esse grupo e logo se disseminou por toda a sociedade. Hoje, o grupo que mais se contamina a cada ano são os jovens e mulheres heterossexuais.

Entretanto, a disseminação do vírus parece estar em um ritmo menos acelerado, numa espécie de platô na curva ascendente da epidemiologia da doença. Nada mais natural, pois os vírus de infecções como essa tendem a se estabilizar após um período de forma a não dizimar seus próprios hospedeiros; parece estar atingindo um equilíbrio na sua disseminação e redução em sua letalidade. Isso foi levantado como hipótese para explicar os dados da Organização Mundial de Saúde, que divulgou, no ano passado, a redução de mortes pela doença.

De fato, a Aids está matando menos que na primeira década da epidemia. Isso devido também às campanhas de conscientização e diagnóstico precoce; também deve-se essa redução aos novos tratamentos disponíveis e ao acesso dos pacientes aos mesmos. Em relação aos medicamentos, diga-se de passagem,  foram os maiores avanços na história da doença. Cada vez mais eficazes, os antirretrovirais, como são chamados, têm colaborado para a estabilização da multiplicação viral, o que vem permitindo uma sobrevida ainda maior para os portadores do vírus, uma menor transmissibilidade e menor contaminação materno fetal.

Muito se fala sobre uma vacina, ou seja, um tratamento preventivo, mas este momento ainda não chegou. Devido às mutações e variâncias do vírus nas populações esse recurso ainda não está disponível, embora existam inúmeros centros dedicados a essas pesquisas. Recente notícia foi a liberação, no mercado americano, do medicamento chamado Truvada, cujo objetivo seria impedir a proliferação do vírus quando usado anteriormente à contaminação, isto é, uma profilaxia. Mas  a realidade é que existem poucos trabalhos científicos, com estatísticas significantes, para comprovar a eficácia desse medicamento como está sendo propagada.

Por isso, precisamos ter cautela quando falamos de tratamento da Aids para não gerar falsas expectativas nos pacientes e familiares. O diagnóstico correto e precoce é extremamente importante, o que facilita o tratamento e propicia certamente uma melhor qualidade de vida para o paciente. O acesso a esses medicamentos é gratuito em nosso país, graças à quebra de patente, o que facilita ainda mais a adesão aos esquemas propostos. Mas essa terapêutica, a longo prazo, também apresenta inconvenientes na sua adesão, como as várias pílulas que devem ser ingeridas ao dia e aos mais diversos efeitos colaterais que esses medicamentos podem produzir no organismo.

Em razão disso, ainda o melhor jeito de barrar o avanço da Aids é a informação e a conscientização da sociedade, em todas as suas classes sociais. O melhor jeito de evitar que esses efeitos ocorram no organismo é a prevenção. Aguarda-se com grande ansiedade uma possível vacina, mas enquanto ela não chega é necessário proteção nas relações sexuais, no uso de drogas ilícitas e sobretudo cuidado com a gestação, através de um pré-natal correto e bem acompanhado. No combate à Aids é necessário que existam os avanços científicos e as novas descobertas, mas esse duelo exige também participação de todos nós, sobretudo com bom-senso e responsabilidade.

 

* Vanderson Carvalho Neri é médico neurologista. - [email protected]