Precisa-se de leitores 

Numa fábrica de livros abandonada às margens de um vilarejo ao sul do Equador, o filósofo andarilho dependurou uma placa com os seguintes dizeres, quiçá sobre uma possível proposta de emprego ou libertação: “Precisa-se de leitores”. A frase causou insuportável estranheza e euforia aos poucos habitantes que conseguiram decifrar a mensagem, pois que eram quase todos operários analfabetos e famintos. Deu-se, então, que o sábio abriu um livro e declamou alguns poemas das mais distintas autorias, épocas e regiões. Explicou-lhes que os pretendentes ao cargo não deveriam apresentar certidões, curriculum ou fotografia; entretanto, caso fossem admitidos, os funcionários teriam direitos e deveres de habilitarem-se pelo ofício de leitura por todo expediente de trabalho, desde a contratação até a aposentadoria.   

Como não houvesse quem se reconhecesse apto ou capaz para exercer a profissão de Leitor, num ímpeto de lucidez o tresloucado profeta resolveu que todos aqueles que se candidatassem ao ofício se reuniriam na praça em frente à igreja, a fim de que se alfabetizassem pela poesia e que pudessem se preparar para as exigências do emprego, que pleiteavam para sustento de suas famílias. A plateia se acotovelara ao redor do visionário alquimista, ávida pela aprendizagem lírica; e, sobretudo, para abocanhar o trabalho que mataria a fome dos rebentos desamparados pelo destino de uma aldeia miserável e necessitada.

Neste ínterim, o viajante orador discursou de uma maneira tão fascinante e mágica que, de sua grave voz, desenharam-se horizontes de arco-íris, pães de açúcar, borboletas multicolores, pássaros verdes e sonhos de vida, por sobre os desertos labirínticos daqueles cidadãos sem mapa de tesouro nem bússola de instrução: “Precisa-se de leitores que se humanizem por intermédio da escrita encantada dos bardos, menestréis e trovadores, de modo a se deflagrar a luz mais ínfima e dilacerante do espírito suscetível ao percurso da aventura de descobrir-se pela invenção do deus Thoth”.

Ao perceber que, entre aplausos e silêncios, os ouvintes balbuciavam o nome de El Rey, como a se pronunciar a chave do enigma, o pregador maltrapilho foi alvejado pela injúria mais mordaz e ultrajante: “–– Para longe deste arraial próspero e sombrio, insigne flibusteiro de ideias!...” –– arrotou-lhe o benemérito governante da região, enfurecido pela audácia do retirante forasteiro. Foi quando o homem em frangalhos atirou-lhe um aceno de raciocínio e memória ao dizer-lhe: “–– Adeus, ó Barrabás das inteligências!...”. E partiu sem se dar pela algazarra que tomara conta do lugar nem se aperceber de que o estribilho se repetia pela identificação de um mito simbólico, conforme a batizá-lo pela primeira vez em sua travessia anônima: “–– El Rey!... El Rey!... El Rey!...” –– bradavam, em uníssono, a elegê-lo o salvador do vulcão pátrio adormecido por épocas perenes e imemoriais. 

Antes que o vento se curvasse, porém, o aventuroso Poeta foi alcançado pela multidão que lhe rasgava as pobres vestes poucas, no afã de lhe tocarem em sua barba alva ou pele do corpo, ao passo que o santificavam pela redenção de uma necessidade absoluta de sobrevivência para além do pão nosso de cada dia. Os fiéis seguidores o arrastaram para dentro dos portões do povoado, à medida que o legitimavam como mártir daquela revolução íntima e particular, que se apossara dos espíritos pagãos pela réstia de lucidez a reabilitá-los de um aprisionamento de alma, de cujos tentáculos já estavam todos resignados diante do fato de que jamais se alforriariam sãos e salvos dos invisíveis calabouços e masmorras de si mesmos.

À luz de julgamento e cadafalso, os aldeões depuseram os antigos mandatários que, por dinastias e eras, lhes ceifaram a ilusão de uma esperança rabiscada no ar pela vara de condão imaginária de um poema, em disfarces de beija-flor ou louva-a-deus. Em meio à cerimônia de posse, proclamou-se, por absurda unanimidade, o excêntrico utopista como imperador do reino. E, no chão de terra do vilarejo abandonado ao sul do Equador, às margens de uma fábrica de livros, brotou uma frágil flor de consciência a que, com água e sal, denominaram Liberdade.    

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco