A força de uma cultura

Sem entrar em detalhes da história e da cultura chinesa, o confucionismo chinês — que não é uma religião, mas um conjunto de preceitos morais, — prega o bom-viver, de acordo com os valores do dever a ser cumprido;  da cortesia entre as pessoas; da sabedoria dos mais velhos e a generosidade para com o próximo.  Uma das ideias mais importantes era que os filhos devam honrar e respeitar seus pais, tanto em vida como após a morte. Encoraja-se a prática do culto aos antepassados como uma obrigação moral, que atravessou milhares de anos.

Estas atitudes têm hoje seus significados, que nossa sociedade ocidental em muitos aspectos não consegue entender e até em alguns casos — no mesmo nível moral — foram abandonados pela força de um capitalismo predatório.

Recentemente, foi divulgada uma notícia em nível internacional sobre um episódio ocorrido naquele país, na construção de uma autoestrada, interrompida por um fato inusitado. O traçado da estrada previa a necessidade de indenizar os moradores ou proprietários das terras por onde ela deveria passar. Segundo a notícia (até com fotos), os donos de todas as propriedades foram indenizados. Entretanto, houve um caso em que não puderam derrubar um pequeno prédio de quatro andares, onde residia um casal de idosos, que não aceitaram a indenização, por acharem pouco para construir uma nova casa. Assim, as autoridades concluíram a construção da estrada, contornando o pequeno prédio, que inusitadamente ficou no meio da rodovia. Assim, todos os veículos deveriam contornar o prédio para prosseguir sua viagem

Para nós, talvez não passasse isso de mais uma das bizarrices chinesas se não fosse o fato de o casal ser de pessoas idosas. É para nós uma lição da força da cultura chinesa, onde o próprio Estado respeitou o interesse de um simples casal pela sua idade. Não houve, supomos, qualquer ameaça, pressão pelo desrespeito, de que deveriam sair daquele lugar para dar espaço ao progresso. Fica registrado o fato da beleza de uma cultura milenar pelo respeito às pessoas de idade avançada. O Estado chinês com toda a sua força, para administrar uma população de um bilhão e trezentos milhões de habitantes, se curvou humildemente a um casal de idosos. Esta é a força de uma cultura. 

 

*Sergio Sebold, economista, é professor.