Faixa de Gaza e a paz que demora

Há uma semana o mundo acompanha angustiado o desenrolar dos bombardeios e ataques na Faixa de Gaza. E agora já passa de cem o número de mortos. A paz está novamente de luto no Oriente Médio. De várias partes, figuras da diplomacia internacional se mobilizam para conseguir a paz.  

O presidente do Egito chegou a anunciar que o cessar-fogo estaria próximo e aconteceria hoje à noite. Mas, passada  a meia-noite deste dia 20 de novembro, continuam os bombardeios. A violência começou com represálias menos violentas, mas aumentou exponencialmente quando o comandante Ahmed Jaabari, chefe das operações militares do Hamas, foi morto durante um bombardeamento israelita na Faixa de Gaza. Jaabari era o comandante das brigadas Ezzedin al Qasam, o braço armado do Hamas. Segundo testemunhas, Jaabari morreu na explosão de seu automóvel junto com um acompanhante. Ahmed Jaabari era a mais alta patente do Hamas a ser morta desde que Israel invadiu Gaza há quatro anos.  

O Shin Bet, serviço secreto israelita, confirmou o ataque, que justificaram como resposta à atividade terrorista exercida por Jaabari durante uma década. Os israelitas responsabilizavam-no pelos constantes ataques ao seu território e pelo emblemático sequestro do soldado Gilad Schalit, em 2006.  

Há dias,  momentos de silêncio e aparente tranquilidade alternam-se com dezenas de explosões de grande potência, que depois cessam para dar lugar a um silêncio quebrado ocasionalmente por alguma outra detonação mais fraca. Os bombardeios sobre a faixa palestina são incessantes, e o lançamento de foguetes das milícias palestinas contra Israel também não para. Os civis que residem ali recomeçam cada dia sua rotina sob a ameaça que já vivem há tanto tempo. Com a esperança da trégua e do cessar-fogo, algumas pessoas  foram comprar mantimentos para a eventualidade de o conflito continuar.  E aconteceu, infelizmente, o que esperavam.   

Enquanto isso, a esperança de que o conflito seria interrompido reinava. O ministro das Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, afirmara que a trégua entraria em vigor à meia-noite deste dia 20, durante sua visita a Gaza junto com um grupo de colegas árabes. O próprio presidente egípcio, Mohammed Mursi, assegurou  que "a farsa da agressão israelense contra Gaza“ terminaria. Declarou que os esforços desdobrados pelo Egito para conseguir um cessar-fogo entre palestinos e israelenses dariam "resultados positivos nas próximas horas”.

No entanto,  a menos de duas horas do início da suposta trégua  não havia nenhum acordo israelense sobre uma fórmula para alcançar um cessar-fogo. E o passar das horas confirmou que as esperanças não tinham fundamento, e a violência iria continuar.   As afirmações vão numa e noutra direção, seja afirmando o cessar-fogo, seja negando-o. Ora a esperança de paz se acende no coração das pessoas, ora desaparece, esmagada pela violência que continua.   

Em entrevista coletiva conjunta com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não fez referência expressa à existência de um cessar-fogo. Como sempre acontece nessas ocasiões, as potências e os mandatários políticos deliberam e decidem.  Em suas mãos movimentam-se os fios da vida de inúmeras pessoas, mulheres, crianças, idosos. Vidas indefesas, projetos sonhados e apenas começados são destruídos em segundos.  Em tantos anos de conflitos incessantes, sem frutos favoráveis que resolvam de uma vez por todas a situação, parece óbvio que a violência e o ataque armado não são solução para nada, apenas pioram a situação de desentendimento e conflito.  Porém, tudo continua, e o ser humano parece não dar mostras de conseguir efetivamente construir a paz.   

Ninguém quer assumir nada de déficit.  Ninguém aceita perder uma polegada sequer em prol das vidas alheias.  Enquanto isso, Gaza continua a arder sob o fogo das armas de um e outro lado.  E as mães continuam a chorar os filhos mortos, a esperança assassinada e o futuro sombrio. Enquanto Gaza arder, o coração dos construtores da paz é obrigado a arder também, de desejo e zelo, procurando toda ocasião possível existente para construir a paz.


* Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de ‘Simone Weil – A força e a fraqueza do amor’ (Ed. Rocco). -  [email protected]