Viva a juventude viva!

Escrevo em 15 de novembro, dia da Proclamação da República, e às vésperas do 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. 

Carta dilacerante foi encaminhada pela Rede de Educação Cidadã-São Paulo (Recid-SP) à Reunião Ampliada nacional da Recid, dirigida à sociedade e ao governo federal, deixando todas e todos do Brasil inteiro impactados e à beira das lágrimas: “Esta carta vem em meio a uma conjuntura massacrante de São Paulo. Estamos escrevendo para partilhar situações, episódios e encaminhamentos que temos tido ao longo destes últimos meses. As periferias vêm sendo sitiadas, invadidas dia após dia, sem nenhuma explicação pertinente. As famílias estão ficando amedrontadas a ponto de evitarem que seus filhos saiam de casa e vão, seja para a escola, seja para oficinas da Recid, seja para uma atividade cultural. Os espaços de cultura (saraus) da região do distrito do Jardim Ângela quase em sua totalidade vêm sofrendo represálias para se manterem fechados. Precisamos fazer ecoar as   dores das mães que vêm perdendo seus filhos desde 2006, quando cerca de 500 pessoas foram assassinadas entre sociedade civil e funcionários da segurança pública. Os excessos nestes últimos meses, tanto da polícia oficial (fardada) como através de grupos de extermínio formados por uma parcela desta mesma polícia, têm como alvo, tanto pelo aprisionamento ostensivo quanto pelo extermínio sistemático, aqueles que podemos identificar sob três adjetivos: pretos, pobres e periféricos”.  

Em 27 de setembro, foi lançado, em Maceió, o Plano Juventude Viva, elaborado pela Secretaria Geral da Presidência da República, por meio da Secretaria Nacional da Juventude, e pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), com apoio de um conjunto de ministérios e participação ativa da sociedade civil. 

É o começo da resposta urgente e necessária a ser dada para uma realidade alarmante. Atualmente, o homicídio é a principal causa de morte de jovens de 15 a 29 anos no Brasil. Com um fato agravante: os jovens negros são as principais vítimas. Em 2010, foram assassinadas quase 50 mil pessoas no Brasil. Mais da metade delas eram jovens (53,3%), das quais 76,6% negros e 91,3% homens. Entre 2001 e 2010, mais de 270 mil jovens foram vítimas de homicídio no país. 

Nas palavras de Severine Macedo, secretária nacional da Juventude, está nos objetivos do Juventude Viva: “Levar aos territórios mais afetados pelos homicídios oportunidades de renovação das relações sociais; superar discriminações e desigualdades históricas e fortalecer as instituições democráticas, para que o Estado se consolide como promotor e principal defensor dos direitos humanos; construir um país em que o direito à vida sem violência e sem discriminações seja a verdadeira base de convivência social”.  

A carta da Recid-SP termina assim: “Por tudo que foi relatado acima, a opção do governo federal não deve ser uma mera soma às políticas punitivas que vêm sendo levadas pelo governo estadual, mas contribuir para barrar a política de extermínio, pautar o governo para que tenhamos uma política de segurança pública baseada na defesa e não na violação de direitos. Este último ponto não é uma tarefa exclusiva de gestores públicos, mas um compartilhamento com os Outros – os presos, os nóias, os moradores de rua, os moradores das periferias, enfim todos aqueles que moram no estado de São Paulo e que vêm tendo dia após dia seus direitos violados. O que pedimos não é uma soma fácil, repetitiva, a toque de caixa. Pedimos uma nova soma: que, ao invés de subjugar ainda mais estes Outros, que os tragamos para isto que chamamos de democracia. 

Assim, nós da Recid e de tantos outros coletivos partilhamos nossas dores, preocupações e anseios, como consta em O embaixador, de Morris West: "Achavam-se agrupados e presos à terra por uma raiz comum, como uma moita de bambu. E como esse vegetal, inclinavam-se e dobravam-se. Mas sobreviviam às maiores tempestades". Assim estamos todos e todas neste momento. Inclinamos às vezes, sofremos baixas em outras, mas sobreviveremos”. 

É de chorar. De dor: pelas mortes e assassinatos, pela repressão, pelo sofrimento, pelas injustiças. De alegria: porque o povo se levanta, jovens se levantam, educadores/as populares se levantam. E quando um povo se levanta, a esperança existe, acontece e se realiza.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.