Obama: uma vitória das minorias

Há quatro anos o mundo parou para ver algo impensado: a entrada de um negro na Casa Branca, sede da Presidência dos Estados Unidos.  E não entrando pela porta dos fundos ou da cozinha.  Mas como presidente eleito pela maioria dos estadunidenses, a fim de governá-los por quatro anos consecutivos.  

Naquela ocasião, após torcer e rezar durante meses, eu escrevi aqui que “Black is beautiful” e que o rosto da maior potência do mundo havia mudado radicalmente naquela ocasião histórica. A força do símbolo alargava os pulmões e dilatava os espaços interiores.  E era possível acreditar que o novo abria caminho onde o mesmo e o continuísmo pareciam instalados para sempre.  Era possível acreditar na liberdade do ser humano que escolhe, que opta, que decide e  consegue manter-se imune às coações de qualquer tipo.  

Agora, quatro anos depois, o sentimento e a expectativa foram os mesmos, senão maiores.  A campanha foi dura, sofrida, apertada.  Primeiro debate perdido, ataques contínuos que se repetiam.  O olhar preocupado de Michelle perscrutando o rosto cansado do marido trazendo maus presságios. E os números, os números.  As percentagens mínimas fazendo diferenças que pareciam enganosas e davam mais medo que esperança.  O furacão Sandy abatendo-se sobre Nova York, acabando com a eletricidade, deixando os eleitores isolados e sem poder votar.  

Mas, quando a contagem começou, o alívio tomou conta dos corações e pulmões.  E Obama subiu mais uma vez no palanque de Chicago para dar “forward” – adiante! Para a frente! – nas expectativas de milhões de cidadãos que confiaram nele e apostaram na continuidade de seu governo.  

Escolha mais importante porque mais consciente essa de agora do que a de quatro anos atrás.  Verdadeira eleição no sentido de escolha de uma opção para deixar de lado as outras.  Os estadunidenses agora já conhecem seu presidente.  Para o bem e para o mal.  Alegraram-se com seu carisma e inteligência, e com a harmonia transmitida por sua relação com a esposa e a família.  Comemoraram algumas das magras conquistas que conseguiu sob as mais diversas pressões.  

Igualmente decepcionaram-se com o que pareceu ser sua pouca firmeza quanto a questões espinhosas como a saúde pública e a volta das tropas do Oriente Médio. Nem todos terão apreciado a maneira como foi capturado e morto Osama Bin Laden. Ou as posições do presidente sobre o aborto.  E sobre o matrimonio gay  

No entanto, alguns destes, muitos votaram nele.  Porque reconheceram que, apesar de todas as decepções, a outra escolha seria nitidamente pior.  Escolheram dar a Barack Obama a oportunidade de levar adiante o positivo trabalho de governo iniciado e que precisa de tempo para amadurecer.  

E, apesar de todas as pressões, os ataques, as incertezas, deram seu voto ao presidente negro, que ficará mais quatro anos na Casa Branca. E os que votaram e os que acompanharam de longe esta eleição que influi nos destinos de todos os habitantes do planeta continuam torcendo e rezando.  

Ficam esperando, sobretudo, que o olhar de Obama se volte para aqueles que novamente o colocaram onde está por quatro anos mais.  Ele sabe que não foi eleito pelos brancos WASP.  Foi eleito pelas minorias: pelos latinos, que desejam não sofrer mais com deportações injustas; pela comunidade afro-americana, que reitera seu apoio a esse que é de sua raça; pelas mulheres, que seguramente gostaram de vê-lo ao lado de Michelle e apostaram no novo que ele traz; pelos jovens,  que são a esperança de um país que tem tão tremendo potencial, mas ao mesmo tempo tão imensas dificuldades em levar adiante sua utopia livre e democrática.  

Espera-se que Obama governe para as minorias,  que, na verdade, já se tornam maioria, como demonstra sua eleição.  Espera-se que o presidente reeleito mostre ao mundo que os EUA de hoje não são mais a terra do Kukluxklan, do enriquecimento irresponsável e do preconceito contra outras culturas e raças.   

A América para os americanos, dizia um velho refrão branco.  Agora, com a reeleição de Obama, isso se repete.  Com a diferença de que sabemos quem são os americanos: são os latinos, os afrodescendentes, as mulheres, os jovens, os “diferentes” de todo tipo que mudaram o rosto desse país continente tão fascinante, mas tão conflitivo e contraditório. Para eles e com eles espera-se que aconteça o segundo governo de Obama.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de 'Secularização: novos desafios' (Editora da PUC). -  https://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br