Desequilíbrio decisório 

A moderna democracia procura inventar um caminho estreito que dê conta das transformações que o conhecimento ocasionado pelo desenvolvimento científico-tecnológico impõe hoje à política. A linha divisória entre o que deriva do conhecimento e o que deriva da política não para de se deslocar.

Queremos estar seguros de que quando entregamos aos especialistas escolhas que nossa ignorância anteriormente confiava aos mecanismos da política, estamos realizando uma transferência legítima. Pode-se dizer que a desigualdade do conhecimento sempre existiu; entretanto, suas consequências eram, de alguma maneira, anuladas pela suposta igualdade da razão.

O terreno comum da razão, cerne do ideal democrático, supõe a troca que só se estabelece pelo diálogo. Todavia o menor ato da vida corrente nos confronta hoje com os limites de nossos conhecimentos. Na sociedade da informação e do conhecimento, nem o Estado nem a empresa deveriam estar em condições de entesourar um conhecimento que os colocasse em posição dominante.

A revolução desencadeada pelas tecnologias da informação facilita tanto a difusão do poder quanto a sua concentração. Tornando possível o incrível aumento da velocidade de circulação da informação e permitindo que, através de procedimentos específicos, todos possam transformar essa informação em conhecimento, ela torna decididamente mais vantajoso o exercício descentralizado do poder.

O poder público se dilui atualmente em numerosas administrações especializadas, cada vez mais autônomas. As instituições que organizam e protegem a liberdade exprimem um arbítrio de natureza política que permanece na mão dos homens. Com isso, põe-se a questão dos fundamentos dessa liberdade, sobre as instituições que garantem seu exercício e sobre seus limites.

Mediante a atuação das administrações especializadas a autoridade política perde a possibilidade de controlar diretamente as inúmeras decisões necessárias ao funcionamento da sociedade. É preciso organizar a transparência para evitar as atuais crises observadas no país, consequência de um desequilíbrio decisório.


* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.