Viva o Brasil e o povo brasileiro

Se o vento soprar nos ouvidos como se fosse música, atravessar oceanos, mares e montanhas, e bater no rosto como uma brisa leve; 

Se as coisas e os bens produzidos por todas e todos forem apropriados por todas e todos, e todas e todos puderem desfrutar do mínimo básico, tipo tomar café da manhã, almoçar, jantar e viver bem; 

Se a casa for um teto a que todos e todas tenham direito igual, sem mansões desnecessárias, sem excessos nem luxos; 

Se o telhado abrigar, em primeiro, quem mais precisa, quem está com frio, quem cuida de filhos e filhas, netos e netas, e de plantas, animais e natureza; 

Se o ninho for quente e garantir que todas as bocas nele tenham o pão cotidiano, às vezes um vinho, uma caipira, um suco natural; 

Se as florestas e suas árvores deixarem um suspiro de liberdade para quem olhar sua majestade, passear debaixo de suas folhas ou respirar seu frescor de primavera; 

Se a história for feita sem sangue derramado em vão e for feita aos pouquinhos com a mão, o braço e a cabeça de quantos queiram somar-se à tarefa coletiva, e seja feita pela planta que brota, pela criança que sorri, ou mesmo pelos grandes gestos inscritos no tempo; 

Se os campos, seja brancos de geada, seja verdes pela água da chuva, seja secos como nesses tempos brasilienses — e que amanhã renascerão —, e se os biomas forem espaços livres para os quero-queros, o gado que pasta em silêncio e os filhos dos homens e mulheres se amarem; 

Se os rios, os riachos e os córregos forem símbolos de ternura, e forem límpidos, e forem vida para o corpo e os peixes; 

Se o riso for a recepção em todas as portas e cadeias, em todas as almas e corações, em todos os lugares e templos; 

Se o poder não estiver na mão de um ou na palma de poucos, mas for distribuído como a mãe distribui o alimento aos filhos, como a professora e o professor doam conhecimento e experiência, como o joão-de-barro constrói sua casa com a companheira;

Se a participação popular for marca das políticas públicas de todos os governos, o povo dizendo o que quer e como quer, falando, ouvindo, criticando, propondo, formulando, executando, monitorando e dizendo para o mundo que o Estado e o governo não são de nenhum ditador ou tirano, mas seus; 

Se o educador popular é capaz de, compreendendo a realidade, fazer junto a cisterna, distribuir e elevar os saberes, lutar pela dignidade e pelos direitos, sem soberba, nem vaidade, andando pelos caminhos de terra e pedregulho com quem sofre e sonha; 

Se a igualdade não fosse apenas desejo, mas cada vez mais opção de vida e de governo, e o Brasil deixasse de ser o quarto país desigual da América Latina, e fizesse a reforma agrária, a reforma tributária, a reforma política e do Estado e todas e todos pudessem ser livres e iguais; 

Constrói-se uma nação assim, uma pátria grande, sem sub alternidade, sem joelhos dobrados, sem vozes caladas, sem cabeças ocas, com pensamento no futuro, com olhar para o continente, com preferência para o Sul, com sentimento de humanidade. 

Há um tempo para cada coisa. Há o fazer, há o pensar, há o iluminar, há o ouvir, há o cantar, há o dizer e proclamar.Este é o tempo do Brasil e do povo brasileiro. O passado, colonial de fato e na cabeça, está longe, foi-se nas brumas do tempo, embora suas cinzas muitas vezes se façam presentes e ainda assombrem. O presente, do pensamento próprio, do destino traçado com autonomia, o caminho pelas próprias mãos e ideias, torna o hoje mais humano e prenuncia o que vem, o que virá. O futuro, ah o futuro, é de ser dono do nariz e da própria história, é de ser solidário e feliz, sonhador e revolucionário, sempre. O tempo é ontem, hoje e amanhã, como e com democracia, igualdade, justiça, soberania, e muita, muita alegria.

É tempo de esperança e fé, tempo de ser povo, tempo de ser brasileiro e latino-a ano até a raiz dos cabelos. 

VIVA O BRASIL E O POVO BRASILEIRO! 

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.