As eleições municipais no Rio 

As disputas eleitorais ocorrem, em geral, em duas frentes: situação versus oposição. Aqui no Rio, o atual prefeito, Eduardo Paes, tenta a reeleição com o apoio de uma gigante frente de partidos, disputando com outros setes candidatos oposicionistas de diferentes influências ideológicas. 

O contraste principal entre os dois blocos é a forma como a cidade é apresentada. De um lado, o Rio que progride, “moderniza-se” e caminha superando os seus problemas. Do outro, a cidade que vai mal, a saúde e o transporte caóticos, a devastação provocada pelas drogas e a pouca atenção ou auxílio, o problema da especulação imobiliária. Mas, afinal de contas, qual desses dois Rios seria o Rio real? A adesão ao Rio das maravilhas teria o poder de anular os problemas mostrados pelos candidatos de oposição? Será que não estaria o bloco contrário ao prefeito “fabricando” problemas com o intuito meramente de derrubá-lo?

Para responder a estas perguntas, nada mais óbvio do que transitar pela cidade. E para quem vive no Rio, basta andar à noite pelos arrabaldes da Rodoviária Novo Rio, pelas calçadas imundas disputadas pedaço a pedaço por trapos humanos na Central do Brasil, ou mesmo ir até o Jacarezinho, para ver o quão graves são os problemas da cidade do Rio de Janeiro – como, aliás, coincide com os de qualquer outra cidade do Brasil. 

Se é certo, portanto, que a situação omite tais problemas em sua propaganda eleitoral, a oposição, por outro lado, não hesita em explicitá-los. Ora, mas se todos oposicionistas estão juntos nesse mesmo objetivo, por que estariam separados – cada um contra cada um – na disputa? Quais seriam as diferenças entre eles? A resposta a essa questão pode ser dada a partir das diferentes abordagens que os candidatos têm a oferecer sobre os problemas. Rodrigo Maia, por exemplo, ao apresentar o problema do crack, propôs aumentar o acesso a clínicas de recuperação e – pensando a longo prazo – o investimento em educação. Outro candidato, Cyro Garcia, afirmou que o problema do serviço de saúde pública estaria na transferência da sua administração para a iniciativa privada, e que, portanto, uma das soluções seria a extinção das Organizações de Saúde (OSs). Ainda sobre este assunto, Fernando Siqueira e Marcelo Freixo destacaram que o Rio teve a pior nota de avaliação do SUS; o primeiro falou da incompatibilidade entre saúde e negócio privado; já o segundo falou em participação popular. Mas, a pergunta interposta persiste: como diferenciar cada um deles? 

Primeiro, o problema do crack não é uma questão simples, de recolhimento, e de educação – como medidas em si mesmo. Este seria apenas a expressão vil por meio da qual se verifica a que ponto de degradação as populações “sobrantes”, sem espaço na economia formal, chegaram. Sem uma mudança na condição econômica geral, é possível afirmar que esse ainda não seja o fundo do poço para essas populações. Essa inclusive pode ser uma diferença basilar – por exemplo – entre Maia e Cyro. Ao tratar de um problema que pode ser considerado de saúde pública, Maia não fez referência ao modelo de gestão da saúde – se público, ou privado. Cyro foi enfático: “Rodrigo Maia e os outros candidatos não utilizam o serviço público de saúde”. Mas, a saída – para esse problema e outros, como o do transporte – estaria na estatização? 

O princípio dessa linha de argumentação se apoia numa tese muito clara que é a negativa em se fazer de um bem vital (a saúde) um negócio – “A saúde não tem preço”, afirmou Siqueira. Embora a estatização seja um bom começo para a superação dessa incompatibilidade entre a oferta de serviços e a sua oferta de forma privada – vista no contraste entre a precariedade do hospital público e o atendimento oferecido pelos planos de saúde ávidos por lucros –, ela em si não equaciona os problemas nos quais estamos submersos e com os quais os problemas – aqui no caso, do transporte e da saúde – estão intimamente articulados. Por exemplo: o problema da superlotação dos trens na SuperVia em horário de rush ou a parcela significativa das vítimas de violência que sobrecarregam o SUS têm ou não correlação com a diminuição (da jornada) e distribuição equitativa do trabalho – para que todos possam trabalhar e compartilhar do trabalho total (e as massas “sobrantes” deixem de ser supérfluas)? O direito ao trabalho teria ou não – junto com a elevação cultural propiciada pela educação – participação decisiva na superação dos casos de violência e, por consequência, na diminuição da superlotação dos hospitais?

A aparição do ex-presidente Lula no programa de Paes também não dá conta dessa intrincada relação entre os problemas que no todo constituem o problema social dos nossos dias. Afirmar que o povo que vive em áreas precárias e de risco é – hoje em dia – “tratado como gente” é, realmente, ter parâmetros muito desvirtuados em relação ao ser humano – para afirmar que tais pessoas, sob aquelas condições, agora “vivem bem”. A acertada fala de que a cidade do Rio fora exponencialmente aumentada em número de habitantes em função da migração do campo para a cidade só fica fora de lugar porque omite as razões dessa emigração (e, portanto, do atual inchamento), bem como sequer problematiza a respeito da assombrosa aglomeração de pessoas (cidade) e menos ainda sobre a dicotômica relação campo x cidade (nem diz uma palavra sequer sobre o atenuar progressivo dessa diferença). Numa palavra, as sérias carências de análise, junto com a carência de análises sérias, indubitavelmente tendem a bloquear o horizonte de mudanças substantivas para a cidade. 

* Rogério Castro é doutorando em Serviço Social pela UFRJ.