Dinheiro público e Copa 

Não estou convencido de que a Copa do Mundo e a Olimpíada trarão um benefício maior ao país. Creio mesmo que, objetivando viabilizar os dois eventos, questões da mais alta prioridade para o interesse nacional estão sendo deixadas de lado. Estamos a construir estádios com dinheiro público, que poderão, como na África do Sul, tornar-se elefantes brancos. A prefeitura de São Paulo colocou 420 milhões de reais e o governo do estado, 70 milhões para construir um estádio, quando havia outras opções mais baratas e sem necessidade de usar dinheiro governamental.

É de se lembrar que o orçamento da cidade de São Paulo, que tem população maior do que a da maioria dos países do mundo, é limitado, de apenas 30 e pouco bilhões de reais. Vale dizer, meio milhão de reais foi tirado para um estádio, quando há problemas reais de educação, saúde, enchentes, vias esburacadas, abastecimento, trânsito etc não solucionados,  que demandam recursos, e para os quais o seu orçamento parece ser insuficiente!

Por outro lado, toda a infraestrutura necessária — esta, sim, de utilidade após os eventos esportivos — está atrasadíssima, por incapacidade gerencial — segundo notícias de jornais —, gerando fundados receios de que não a teremos com o mínimo de adequação para a Copa de 2014.

A espetacularização política parece, no caso, prevalecer sobre a competência administrativa, razão pela qual aeroportos, estradas, hotéis, trânsito urbano e soluções de transporte interno representam uma gama de problemas com soluções pífias até o presente.

A própria preparação esportiva não tem merecido — esta, sim, mereceria — atenção maior, como demonstrou a medíocre performance dos nossos atletas em Londres, onde apenas o vôlei, em que somos potência tradicional, teve desempenho  digno, nas quatro modalidades que disputamos com medalhas em todas elas. Destacaram-se, ainda, talentos isolados, decorrentes mais do esforço pessoal do que de apoio técnico-governamental. A seleção de futebol, "sensação do torneio", teve que se contentar com uma medíocre atuação na final e sem o ouro.

Preferiria que o Brasil gastasse mais em todas as suas indiscutíveis necessidades e investisse, aí, sim, se justifica dinheiro público, no aperfeiçoamento do esporte (futebol e outras modalidades), do que gastar recursos públicos em obras faraônicas, que poderão se transformar em monumentos inúteis.

Os 15 dias de cada evento estão levando o Brasil a deixar de lado o que é mais relevante e deseja há muito mais tempo (reformas política, tributária, trabalhista e administrativa). É preciso repensar o modelo. A receita tributária tem sido gerida pelo Estado "pro domo sua", e não em prol das verdadeiras necessidades de um país, cuja renda per capita não condiz com a de muitas nações de PIB consideravelmente menor e não desenvolvidas. Tanto assim é que 35% da riqueza nacional são usados, todos os anos, para custear uma máquina burocrática esclerosada.

Enfim, os holofotes destas duas quinzenas de eventos não justificam, a meu ver, tantos desvios de enfoque e tanta protelação de projetos prioritários para o bem do país.

* Ives Gandra da Silva Martins é jurista. -- [email protected]