A nova América de Paul Ryan 

Será que Paul Ryan conseguirá fazer, no futuro, pela América o que Robert Kennedy imaginava para o seu país no terreno prático? Digo “imaginar”, e não o que ele conseguiu realizar, por causa do assassinato. Paradoxo por serem de lados políticos distintos? Sim e não.

Reverberou numa insuperável junção de densidade e classe o conservadorismo de fachada dos anos 50 no âmbito americano através das obras cinematográficas respectivamente tuteladas por Nicholas Ray e Douglas Sirk – Rebeld without a cause (1955) e Imitation of life (1959). N’ambas berra o drama familiar à mercê da evasão individual catapultada pela vontade do êxito mundano. Mas como uma pessoa conquistará o êxito se rachado está o fundamento, ou seja, a base familiar, o elo espiritual entre o homem, a terra e Deus?

Não se vence a grande jornada sem sacrifícios. De modo que gerações vindouras sempre lembrar-se-ão do esforço parental pela luta da continuidade da antiga herança dos primeiros patriarcas. E tal honra não se compra, se conquista. Tornado motivo central de ambição, o lucro esfacela a vida da pessoa pelo simples fato de que os próprios pés não mais encontram o sustento do lar nos momentos difíceis. E nestes momentos, somente a família recupera o sentido da vida.

Os serviços prestados não apenas pelos indivíduos que labutam, mas também pelos que cuidam do lar, devem estar entrelaçados para que uma nação recupere aquela nostalgia de unidade que toda a vida completa e plena de uma pessoa irradia para as outras menos favorecidas. É este tipo de vitória que sacramenta o mérito bem fundamentado. É este tipo de vitória que incita no coração o desejo pela sincronicidade íntima, paz interior e coesão transcendental. É este tipo de vitória que lança a esperança ancorada num passado metafisicamente tradicional, para que o futuro aconteça com menos ruídos.

Certa vez, disse Henry Ford: “Amar o povo é fácil, difícil é amar o próximo”. E tal desafio é vencido por meio do toque, do aconchego, do carinho, e não através de discursos modernosos que incitam a dissolução familiar com monstruosas retóricas como o tal “direito reprodutivo”, que no final das contas não passa de um literal aborto. Não apenas vive o homem do “social”, e muito menos precisa de politicalhas. A necessidade de interiorização brota supranaturalmente no coração do ser humano. E, justamente na iminência da crise, onde a dor mais íntima acusa o terrível faro de problemáticas questões, reconfortada fica a alma quando acontece o apoio familiar, inexorável suporte querido por Deus.

Na verdade, foram estes dois irmãos, Robert e John, da família Kennedy, que romperam com uma fase do ideário americano já desgastado pelo tempo. Porém, a mentalidade contracultural, após a sua emancipação valorativa na cabeça das pessoas a partir da década sessentista, já deu a contribuição que lhe cabia. Agora, urge um novo recomeço para que o absolutismo ideológico perca novamente a sua força simbólica.

 

* Roberto Muñoz é escritor.