Uma semana especial para a ciência fluminense 

Em toda atividade criativa, seja artística, cultural ou científica, é fundamental a convivência e troca frequente de experiências. Na área científica, esta convivência é ainda mais necessária face à própria dinâmica do avanço científico traduzida pelos milhares de artigos publicados cada ano em revistas altamente especializadas. Nada como o contato direto entre pesquisadores para dirimir dúvidas e discutir propostas e hipóteses que orientarão os experimentos a serem realizados em seguida. Na área biológica, todos estes fatores são mais agudos face à velocidade da revolução permanente nos dados, interpretações e conceitos que mudam a cada dia, como consequência dos avanços tecnológicos nas mais diferentes áreas do conhecimento e que impactam de forma crescente as chamadas “Ciências da Vida”. 

Uma das maneiras de se atestar a dinamicidade da Ciência desenvolvida em um país é a frequência com que seus pesquisadores interagem entre si e com colegas do exterior. Melhor ainda, se tal interação ocorre com pesquisadores de alto nível e que têm dado contribuição importante para o avanço da Ciência. É neste contexto que destaco a riqueza do debate científico vivida pelos pesquisadores do Rio de Janeiro nesta última semana, quando algumas dezenas de pesquisadores por aqui passaram para participar do Décimo Congresso Internacional de Biologia Celular, realizado na cidade, ou em trânsito para a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em São Luís, Maranhão. Entre estas personalidades do mundo científico, três merecem um destaque especial. 

Começo por Bruce Alberts, professor emérito de bioquímica e biofísica da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, San Francisco. Além de uma carreira científica de sucesso, notabilizou-se por presidir, até recentemente, a importante Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos e incentivar mudanças significativas, ainda em curso, no ensino da ciência em seu país. Tem atuado no sentido de estimular a cooperação científica internacional e recentemente foi designado pelo presidente Barak Obama como uma espécie de embaixador para a cooperação científica com os países muçulmanos. Exerce ainda a posição de editor-chefe da revista Science, que junto com aNature constituem as mais importantes revistas do mundo científico. Bruce Alberts é mais conhecido ainda por ser o primeiro autor do célebre livro intitulado Molecular biology of the Cell, traduzido em três dezenas de línguas, indo para a sexta edição e que constitui hoje um dos mais populares livros-texto do mundo científico. Durante todo o congresso, centenas de jovens pesquisadores formaram fila para solicitação de autógrafos ou mesmo uma foto com um dos mais célebres pesquisadores da atualidade. Destaco ainda o fato de que desde esta semana Bruce Alberts passou a ser doutor honoris causa da UFRJ.

Continuo com Kurt Wüthrich, eminente químico suíço que revolucionou a bioquímica ao desenvolver metodologias de alta sensibilidade na determinação da estrutura de proteínas, moléculas que desempenham papel fundamental na estruturação das células que formam todos os organismos, bem como no estabelecimento das relações entre elas e que dão origem a organismos mais complexos. Foi pioneiro na utilização da espectroscopia por meio da ressonância magnética nuclear, no estudo das proteínas, e, pelo seu trabalho, recebeu em 2002 o Prêmio Nobel de Química. Atualmente dirige dois grandes laboratórios, um localizado no célebre ETH, de Zurique. e outro no Instituto de Pesquisa Scripps, em La Jolla, Califórnia. A partir desta semana, Kurt Wüthrich passa a atuar também na UFRJ, dirigindo um grupo de pesquisa no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biologia Estrutural e Biomagens, como parte do Programa Ciências sem Fronteiras. 

Finalizo mencionando Dan Schechtman, Prêmio Nobel de Química de 2011 e que desenvolve suas pesquisas no importante Instituto Tecnion, localizado na cidade de Haifa, em Israel. Ele descobriu os chamados quase-cristais, nova forma de organização dos átomos, além das formas amorfa e cristalina conhecidas classicamente. Dan estabeleceu contatos com pesquisadores da UFRJ e certamente será mais um pesquisador de destaque a fortalecer a tão necessária internacionalização da UFRJ.  

Concluo manifestando a certeza de que o aumento na cooperação científica de nossas instituições com pesquisadores importantes de outros países terá elevado impacto na qualidade da ciência brasileira.

* Wanderley de Souza, professor titular da UFRJ, é diretor do Inmetro e membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina.