Performer ou poeta – eis a questão

Em colóquio com o gramático Jorge Máximo e o filósofo André Luiz Pinto na festa lusitana da Cadeg (Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara), com direito a discurso do presidente da nação vascaína, Roberto Dinamite, e posteriormente no restaurante Cevada, em Copacabana, discorríamos sobre o panorama da poesia fluminense quando chegáramos à inusitada constatação de que um excêntrico tipo social ganha, a cada dia, mais vulto de celebridade nos saraus da cidade do Rio de Janeiro – o performer, espécie de artífice multimídia que prima pela espetacularização do ofício de menestrel ou trovador. À luz de bolinhos de bacalhau, sardinha assada e picanha, concordávamos que a descrição do desempenho deste indivíduo se restringe a um grau de insuficiência artística que se equilibra por sobre frágil recurso teatral e, sobretudo, literário, com estúrdios malabarismos de oralidade, que o impulsionam à categoria de um híbrido de agitador cultural e apresentador de programa de auditório.

Cabe dizer que para divulgar a sua magistral obra poética o desdito performer se utiliza de recursos audiovisuais e artes plásticas ou até mesmo se atira ao chão, planta bananeira ou improvisa cambalhota em palco de teatro, botequins, palanques ou praça pública. Discutíamos como impressiona a fragilidade intelectual destes contorcionistas do verbo ou pífios clowns de Shakespeare, em conjunto com a ousadia da apresentação com intuito de seduzir pela atitude e não pela Palavra escrita que origina o poema. Em verdade estes acrobatas do lirismo pouco valor dão ao registro poético, porque alegam que a sua obra "ganha corpo" com a declamação oral. O que me instiga a indagar se após alguns anos quando o leitor se deparar com o manuscrito deverá se portar tal qual o autor de peripécias físicas com as suas acrobacias lúdicas e espetaculosas...

De outra feita, o que chama a atenção vem a ser o exorbitante número de inventores da oralidade que se candidatam a abocanhar um alto padrão de audiência através de uma performance circense ou pornográfica. Certa feita, eu fui convidado pelos poetas Flávio Nascimento e Eurídice Hespanhol a ir a um evento de declamação e oratória, com a ilustre participação de um decadente ex-galã global que se tornou performer; e qual não foi a minha surpresa quando descobri que todos os participantes recitariam para eles mesmos... O que me obrigou a refletir sobre os leitores de poesia, não os que ostentam o título de atores do espetáculo que, por si só, se representam; porém, sobre aqueles que se definem como apreciadores do vocábulo transcrito pela comunhão do silêncio que aflora verso a verso, salvo engano, alinhado em estrofes conforme se fazia na Antiguidade Clássica, Idade Média ou Renascença. 

O fato é que, ao substituir o instrumento de divulgação de sua escrita por um discurso valorizado pelo recital ou comício, a espetacularização do poema possibilita a fundação de academias, sociedades, corporações, confrarias etc. Isto sem considerar que, de um modo geral, tais indivíduos desconhecem conceitos básicos de Versificação e Estilística, à proporção que não conseguem distinguir uma rima rica de uma pobre, quiçá porque não se interessam por economia. Neste compasso confundem neoconcretismo com a construção de Brasília por Oscar Niemeyer e sequer concatenam o raciocínio a desbravar a metrificação imposta por sílabas poéticas ao lerem Homero, Virgílio, Dante e Camões.

Para encerrar a crônica recordo-me de um diálogo que travei com um dos ídolos desta incauta geração composta por performers da contemporaneidade, o insigne Chacal. Foi que o compositor Tavinho Paes o indicara para um ciclo de conferências com escritores que se dispusessem a dialogar com o público universitário. Por e-mail, o ícone da marginalidade mimeógrafa indagou-me qual seria o cachê disponível ao palestrante do círculo de leitura intitulado Roda de Poesia. Expliquei-lhe que não dispúnhamos de verba para o evento, e uma solução prática para viabilizar a presença dos autores seria o lançamento de livros dos respectivos convidados, além do transporte e refeição.  No que ele me respondeu que a sua religião não lhe permitia tal caridade lírica, de modo que só pude restituir a ironia com uma singela alusão quase bíblica: “ Que Deus o tenha”. O bardo, ao invocar o espírito quixotesco, devolveu-me uma agressiva réplica “ E que o Diabo o carregue”. Enfim, restou-me dizer-lhe: “ Amém, Chacal”.       

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco.