Como reduzir a política 

Uma concepção otimista da globalização faz supor que ela é construída pelo processo de agregação individual em que cada consumidor vai progressivamente se juntando aos circuitos da economia global. No entanto, a fé no indivíduo que, desde o Renascimento, faz o mundo se mover, não acaba com a necessidade que têm hoje os indivíduos de pertencer a uma comunidade humana. E, ainda, que a relação concreta dos indivíduos com uma comunidade particular só se estabelece mediante o diálogo.

A globalização obriga à retomada da reflexão sobre seus fundamentos, sobre as instituições que garantem seu exercício e sobre seus limites. De fato, ela tem sido acompanhada de um ressurgimento de seitas, de nacionalismos étnicos e fanatismos religiosos. Esta fragmentação pode ser a consequência inesperada do descompasso intolerável entre a natureza global das questões que determinam nosso futuro e o caráter particular das comunidades com as quais nos identificamos.

Existem hoje setores da sociedade que se integram à economia global e outros que ficam de fora. Num mundo onde o poder se dilui numa infinidade de pequenas decisões, que avança a pequenos passos medidos, por ajustamentos sucessivos, a organização democrática da interdependência entre comunidades diversas é essencial.

Encontrar o equilíbrio entre interesses públicos e interesses privados é a única maneira que os cidadãos têm para construir mediações políticas eficazes e compatíveis entre a solidão individual e a abstração da globalidade. É preciso resistir à tentação de reduzir a vida democrática a um exercício de matemática no qual a soma algébrica das escolhas individuais toma o lugar da discussão democrática.

Como reduzir a política a uma técnica de organização das relações entre os indivíduos? Fato é que a busca individual da felicidade não parece hoje suficiente para explicar – e menos ainda fundar – uma sociedade.

 * Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.