Patrulhamento vergonhoso

A cada episódio se agrava o baixo nível da política nacional. Não bastassem os escândalos, casos de corrupção, tráfico de influência, nepotismo, falta de decoro e ausência de critérios de mérito no preenchimento de cargos públicos, a manipulação do noticiário político ganha contornos que afrontam a liberdade e a democracia. E as redes sociais revelam uma população passionalmente envolvida, desinformada e equivocada. 

Na verdade, a aliança Lula-Maluf, em São Paulo, foi explorada de maneira exagerada, como se fosse um crime a união de dois partidos e de suas lideranças, considerando um quadro municipal e os interesses de uma cidade em que ambos os partidos vinham se alternando no poder. Maluf foi prefeito duas vezes, elegeu seu sucessor, e Lula viu correligionários, como Erundina e Marta Suplicy, eleitos. Agora resolveram se unir em função do real interesse de ajudar uma cidade do porte de São Paulo a ter um diálogo próximo com a União, que possui o poder de facilitar recursos. E  o PP é  da base governista desde o governo FHC.  

O senhor José Serra, que inspira todo este barulho, não pode criticar a aliança pela qual lutou até dois dias antes. E muito menos reclamar da imagem do PP e seu líder, quando está aliado ao PR, partido cercado de suspeições e repleto de suspeitos em vários estados. Além do mais, o prefeito Kassab, que apoia Serra, foi secretário de Celso Pita, o prefeito indicado por Maluf, que a todos decepcionou e veio a morrer em meio a tantos processos. O senhor José Serra, que corteja o eleitor mais conservador, no entanto, nunca explicou a este eleitorado como evoluiu de orador do comício do dia 13 de março de 63, do então presidente João Goulart, e de sua militância no Partido Comunista, para a posição atual, supostamente de centro-esquerda. No governo FHC, foi um crítico das privatizações, como se sabe.  

O segundo e chocante patrulhamento é a intromissão de países sul-americanos, incluindo o Brasil, na política interna do Paraguai, contestando decisão inequívoca do Congresso do  país vizinho. Um ato grosseiro, com base numa  busca  de hegemonia de esquerda no continente. O próprio povo paraguaio aceitou bem a decisão do Congresso. O deposto resignou-se. Pelo menos conhece a Constituição de seu país. 

Não é com este tipo de comportamento, marcado pela intolerância e o preconceito, que se constrói o entendimento democrático. No caso brasileiro reincidimos, depois do vexame em Honduras. E, também, não temos moral para criticar o Congresso de numa nação depois que julgamos um presidente da República que havia renunciado, ignorando um ato unilateral. 

E nosso governo deveria ser mais prudente ao acompanhar regimes como os da Argentina, Venezuela e Uruguai

 

* Aristóteles Drummond, é jornalista. - [email protected]