A roda de chimarrão e as rodas de conversa

Lá em casa de papai e mamãe, Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, a roda de chimarrão é sagrada desde sempre. De manhã cedo, entre 6 e 7 horas, tirado o leite das vacas, todos se reuniam ao redor do fogão a lenha. Hora de organizar o dia: quais as tarefas prioritárias; qual parte da roça capinar; que trecho de milho colher; se é preciso levar esterco antes de lavrar o pedaço onde vai ser plantado o feijão nosso de cada dia; saber se os guris fizeram a redação para a escola; decidir se está na hora ou não de colher o fumo ou, no veranico de maio, a soja; vai chover ou não vai chover? 

Antes do meio-dia, a segunda roda de chimarrão: conversar sobre os problemas da manhã; a junta de bois que resolveu andar de lado; comentar sobre os vizinhos e suas lidas, acompanhadas do outro lado da cerca; preparar os trabalhos da tarde. 

Início da noite, vacas e bois na estrebaria, leite tirado, porcos alimentados, ovos recolhidos, tudo quieto, só o silêncio da noite sem luz elétrica, hora de passar o dia a limpo: os pendões de milho que estão aparecendo; a chuva que está faltando ou não; as formigas que estão comendo as plantas pequenas; as goiabas apanhadas no pé à beira da estrada; as bergamotas e seus gomos cheios de doçura. Na roda de chimarrão à beira do fogão a lenha, a família unida se encontra feliz e recompensada, conversando sobre a vida. 

As rodas de chimarrão continuam animando a vida das pessoas, enquanto acontece  estes dias em Venâncio Aires, autoproclamada a Capital Nacional do Chimarrão, de 3 a 13 de maio, a 11ª Fenachim (Festa Nacional do Chimarrão).  

As Rodas de Conversa da educação popular são como uma Roda de Chimarrão. O que são Rodas de Conversa? São atividades com o objetivo de criar espaços de estudo,  debates,  articulação e construção conjunta com movimentos e organizações sobre diferentes temas de interesses e sistematização das experiências de educação popular. As Rodas de Conversa possuem como fundamento a concepção de Círculo de Cultura freireano (de Paulo Freire). São um espaço de ação educativa em que os participantes estão envolvidos em um processo comum de ensino e aprendizagem, com liberdade de fazer uso da palavra, expressar-se, intervir, estabelecer relações horizontais, vivenciar ações coletivas, ressignificar suas práticas e concepções, assim como reler o mundo em que estão inseridos, mediados pelo diálogo, num processo reflexivo (Plano Pedagógico e Organizativo para o Triênio 2012-2014 – Rede de Educação Cidadã - Recid). 

Mais: “Vejamos uma mostra dos espaços onde os educadores e educandos da rede realizam suas oficinas: as casas residenciais, prédios de alvenaria, galpões, barracos de barro com palha, beiras de praia, praças, parques, quadras esportivas, barracos de lona, salas de escritórios, salões paroquiais, salas de aula, hotel, sítios, entre outros. Esses lugares são escolhidos por diferentes razões, mas, na maioria das vezes, são espaços populares por definição, ou seja, já abrigam de alguma maneira pessoas ou coletivos que se comprometem, em alguma medida, com a causa popular” (Sem Cercas e Muros: A Educação Popular no meio do Povo - Equipe pedagógica da Recid e Camp (Centro de Assessoria Multiprofissional), 2012). 

Não parece, a Roda de Conversa, com a Roda de Chimarrão? “É assim que os ambientes e espaços de educação popular de verdade se conectam com a vida. A escuta e a sensibilidade, quando exercitadas, dão conta de escolher o melhor tema, a melhor metodologia e, igualmente, o melhor local. Seja este debaixo de uma árvore, porque faz sombra; no barracão da comida, porque há mulheres na casa da Dona Maria, porque ela é  referência da comunidade” (Idem). 

Eu, tomador diário de chimarrão, mesmo em Brasília, que participo de muitas Rodas de Conversa, digo: a melhor Roda de Chimarrão é aquela ao redor do fogão a lenha na cozinha, família em volta. A melhor Roda de Conversa é a que reúne companheiras/os em torno de um ideal, um sonho, transformar o Brasil em nação de justiça, igualdade, democracia e liberdade. 

Ainda dá tempo de chegar à Festa Nacional do Chimarrão de Venâncio Aires. Se não conhece o chimarrão, é entrar na roda ou aprender a fazê-lo na Escola do Chimarrão.  É o melhor chimarrão do mundo, porque cheio da hospitalidade gaúcha, de alegria e fraternidade.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.