A classe C foi apresentada ao vinho

Com a chegada de mais de um trilhão de reais/ano trazidos pela classe C ao mercado brasileiro, a clássica representação da pirâmide se transformou em ampulheta e a base superior é ocupada pelos ricos, milionários e trilionários e a base inferior pelas classes emergentes.

E a média é a cintura de uma ampulheta.

A avalanche de produtos disponíveis para o consumo em massa é de tal volume que o consumidor, para não se perder num oceano de opções, passa a usar critérios novos para fazer a sua escolha.

Vejam: azeite, “antigamente”, era português, italiano ou grego – e ponto. Agora é virgem, extra-virgem, com alecrim, com acidez menor do 5%, etc. Café, idem. Manteiga, a mesma coisa. E, obviamente, o vinho mais ainda.

Foco no vinho, portanto. E vale a fuga saudosista: como era mais fácil a decisão de qual “cor” pedir num restaurante de bom nível, quando para a maioria das pessoas de melhor poder aquisitivo era só seguir a regrinha de ouro. Tinto? Francês. Branco? Alemão. Sendo que o tinto harmonizava com carne e branco com peixe. E falemos de mulher porque esse assunto “estava” resolvido.

Hoje, não. Tudo mudou – para mais complicado. Costumo brincar (falando sério), que daqui a muito pouco tempo a gente vai convidar um amigo(a) para um drinque, especificando: “venha tomar um espumante rosé chileno lá em casa”... ou: “vamos degustar um Chardonnay australiano, amanhã, em tal lugar?”

Mas, na outra ponta, a reflexão que se segue e que parece complementar esse intróito, é: assim como um gourmet distingue ocasiões de gastronomia diferenciadas -- e se num dia (nobre) almoça ostras escoltadas por um Sancerre e, depois, “mata” um Almaviva para harmonizar com a paleta de cordeiro, sentado, com amigos, no outro dia “faz parte” pedir um picadinho com Coca diet, sentado meia-bunda num por quilo. Da mesma forma que para uma festa a rigor se veste somoking e para um churrasco “na lage”, bermudão.

E aí pulamos para as embalagens. Assim como quem pode já sorveu seus Cheval Blanc ou Saint-Emilion em garrafas magnum, ou um champagne millesimé Taittinger achou o máximo, também “há dias” para um copinho de Merlot “ordenhado” de um bag-in-box --- numa boa.

Sim, mas o que é um bag-in-box?

A maioria já sabe mas não custa repetir: o bib, (como é conhecido pelos franceses, que tudo abreviam) é aquela caixinha de papelão que envolve e protege um saco de alumínio e que contém 1,2 e até 5 litros de vinho, embalados a vácuo. E que jorram de lá por uma torneirinha.

Protegido da luz e do ar, seu inimigo multisecular, o vinho guardado nesse recipiente tem longa vida depois de aberto e facilita a vida do consumidor e do dono do negócio, porque o freguês pode abrir os trabalhos com um branco e passar depois para um tinto. Ou com um dos dois e terminar com um vinho de sobremesa, para acompanhar o doce ou sorvete e voltar uma semana depois para repetir o feito que o vinho estará lá (se não tiver sido consumido por outro freguês, é claro)! Ou seja, é a já conhecida instituição do “by the glass”, com garantia de vida longa para o vinho a granel assim acondicionado.

E essas caixinhas estão ficando cada vez mais atraentes, como nos exemplos abaixo. 

São os novos tempos. E nesse ritmo, juro que vou me sentir muito feliz no dia em que chegar em casa de noitinha e a minha empregada estiver tomando um vinhozinho branco, gelado, provavelmente “tirado” de um bag-in-box!

Vinho não foi feito para humilhar ninguém.