Dois pesos e duas medidas

A luta contra a corrupção no Brasil é realmente difícil. As manifestações populares, via redes sociais e cartas nos jornais, mostram o grau de indignação da sociedade. Mesmo assim, a impunidade é acobertada pelo corporativismo, pelas paixões ideológicas e partidárias, pela insensibilidade da Justiça.

Teme-se, por exemplo, que o rumoroso caso conhecido como “mensalão” acabe prescrevendo e salvando os implicados, apesar de alguns clamarem pelo julgamento por se considerarem injustiçados. Os processos criados a partir das operações da Polícia Federal se arrastam. O Judiciário parece ter prazer em denunciar falhas no encaminhamento das denúncias, favorecendo, mais uma vez, os implicados. 

Volta à cena o sr. Carlos Cachoeira, que protagonizou o primeiro escândalo nos governos do presidente Lula, o “caso Waldomiro”. Dizem que Waldomiro foi condenado, mas parece que em liberdade, e Cachoeira impressiona pela amplitude de suas relações com agentes públicos e abrangência partidária no caso de parlamentares.

No caso do envolvimento de políticos, uma particularidade que compromete nossa democracia. O senador Demóstenes Torres, que para muitos era uma esperança, surpreendeu com  relações fraternas com um homem que desde muito frequenta as páginas policiais. Mas não menos constrangedor foi o tratamento da imprensa e do Congresso em relação a dois deputados envolvidos com o mesmo cidadão, por ser um antigo comunista do PCB e atualmente no seu sucessor PPS, o deputado pelo Rio Stepan Nercessian, e um deputado tucano de Goiás, Carlos Laréia.

Nada se apura no Brasil, quando não tem um interesse político para empurrar. Como foi a denúncia de veículo do Ministério Público, servindo pessoalmente ao ex-deputado José Gesuíno, hoje assessor do Ministério da Defesa. Casos e mais casos de dois pesos e duas medidas.

Na política externa, uma recaída em relação ao Irã, com manifestações do governo pelo abrandamento do bloqueio comercial. Sem contar a passividade diante das retaliações argentinas a entrada de nossos produtos naquele país. O embate com a Espanha, na questão do trato aos nacionais dos dois países nos aeroportos, deveria ter passado mais pelo diálogo do que pelo confronto.  Não nos acrescenta nada, como nas dificuldades em relação a Copa de 2014.

Temos de cuidar, é bom repetir a exaustão, das obras do PAC, que não podem parar nem sofrer novos atrasos. Esta deveria ser a preocupação do governo e da própria sociedade. E não questões meramente políticas, ideológicas, quando não fruto de meros ressentimentos e frustrações. E fazer a Justiça cumprir seu papel, cabendo ao Congresso reformar a legislação que permite, e até incentiva, ma sua lentidão.

Aristóteles Drummond é jornalista