O silêncio e a arte 

Meu querido amigo e colega Fernando Ferreira é talvez, dentre  as pessoas que conheço, a que mais ama o cinema.  Sempre me marcou uma conversa com ele em que, indagado se é justo chamar o cinema de arte (a sétima arte), respondeu sem pestanejar: “Não se discute se é arte.  Discute-se se é ou não a maior das artes”.

Essa frase voltava uma e outra vez a minha cabeça quando via o filme que ganhou o Oscar este ano: a maravilhosa produção francesa O artista.  Ali estava uma obra cinematográfica que se autoconcebia como arte.  E isso queria ser, nada mais.  A meu ver, com resultado positivo.  Como muitos e muitas acompanhei reverentemente os mais de noventa minutos de silêncio grávido de gestos, expressões faciais, olhares, movimentos, passos de dança. 

Em meio à enxurrada de produções digitais, de sofisticações técnicas, de efeitos especiais, destaca-se uma obra de cinema mudo em preto e branco onde apenas a corporeidade e o talento dos artistas, a perícia do diretor e a beleza mágica do desenrolar das cenas se encarregavam de transportar o espectador ao mundo sobrenatural da arte, da sétima arte. 

Em meio aos barulhentíssimos filmes de violência, de música que mais parece ruído do que outra coisa, de obviedades regadas a trilhas sonoras duvidosas, o silêncio majestoso de O artista se apodera da atenção de todos, velando ao mesmo tempo em que revelando a beleza da imagem em movimento captada pela câmara.

As análises se multiplicaram em todas as direções quando o filme começou a subir no céu das apostas de Hollywood após já haver arrebatado outros prêmios em latitudes diferentes.  Muitos interpretaram o favoritismo de O artista como sendo um marco do fim do cinema tal como entendido até hoje.  Disseram que a academia de cinema americana, ao conceder a estatueta à obra de Michel Hazanavicius,  queria marcar a crise da indústria cinematográfica com a entrada definitiva da era digital.

O artista seria então uma despedida.  Despedida de um modo de fazer cinema e de entender e apreciar a cinematografia não mais compatível com os tempos de hoje.  Modestamente, minha interpretação vai em outra direção.  Creio que em meio ao burburinho caótico em que correm o risco de transformar-se todas as formas de expressão culturais, linguísticas, artísticas, o filme traz para a frente da cena a eterna e universal questão da linguagem. 

No silêncio de sua luminosa e talentosa realização, O artista apresenta algo de extrema profundidade: a universalidade do silêncio como linguagem.  Deslizando pela tela em surpreendente harmonia, os corpos e os rostos de Jean Dujardin e Berenice Bejo vão comunicando sem oprimir, transmitindo sem violar, abrindo horizontes infinitos que independem de língua, idioma, código semântico.  

Parece-me que ao invés de ser considerado o fim do cinema e o início oficial da “digitalidade” sem fronteiras, o filme vencedor de todos os prêmios neste ano da graça de 2012 é na verdade a testemunha da vitória da imagem.  Ali onde não são necessários milhares de palavras, a força simbólica e imagética encontra espaço adequado para expandir-se e fazer-se significado no silêncio das mentes atentas e dos corações seduzidos.

Imaginação à solta, o público é tratado como adulto e capaz de ver e interpretar, sem ser atropelado por excesso de conteúdos explicitados até a exaustão.  Exigidos em toda a sua capacidade interpretativa por outro lado, os artistas devem explorar muito mais seus recursos corporais, faciais, gestuais.  Não basta apenas ter um rosto bonito, um corpo sensual e um talento medíocre para interpretar à altura um papel dramático exigente.  Nem é suficiente ser “engolido” por um público igualmente medíocre e pouco exigente que metaboliza sem discernimento o que lhe é servido. 

O artista mostra o que caracteriza a verdadeira obra de arte: a criatividade, a originalidade, a audácia de inovar.  Mas ao mesmo tempo sem concessões à novidade barata e rasa que tem a efemeridade de um suspiro curto. Por tudo isso, e um tanto surpreendentemente,  conquistou merecido reconhecimento por parte de todas as instâncias.

Parece claro que o ser humano está farto de mediocridades óbvias.  O silêncio e a arte são mais necessários que o ar que se respira e a água que se bebe.  Louvado seja o filme de Michel Hazanavicius, que permite a celebração desta verdade. 

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, autora de 'Simone Weil - A força e a fraqueza do amor' (Ed. Rocco), é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.