Os novos baianos (?) 

Por Sergio Sebold  

 É ainda cedo para encontrar explicações coerentes para o banho de sangue e os fatos dramáticos em torno dos acontecimentos recentes no mundo árabe, fora de qualquer entendimento e lógica civilizada, já que as notícias vêm filtradas e pintadas pelas cores de interesse político do nosso lado ocidental. As razões que se subentendem, derivam inicialmente da falta de oportunidade de trabalho para uma imensa população que cresce desmesuradamente.  Pela ótica ambiental, se o crescimento continuar nestes níveis, ter-se-á em breve uma catástrofe demográfica, com miséria e fome por todo o planeta, particularmente nesta região de baixa condição agrícola. Ao invés, constroem-se megacidades de ostentação e luxo, quando estes recursos deveriam ser encaminhados para recuperar imensas áreas desérticas com a tecnologia disponível garantindo subsistência de sua população futura.

Os jovens destes países que estão começando a ter a oportunidade de conhecer os confortos e sobretudo da liberdade do Ocidente, através da internet, e mais agora pela inundação dos telefones celulares de última geração, estão a exigir os mesmos direitos, a mesma liberdade de pensar, mesmo que isto signifique uma ousadia contra os cânones do islamismo. Infelizmente, de manifestações pacíficas e ordeiras está se descambando para uma guerra civil na busca penosa da democracia. O que se vê são tiranetes, agarrados ferrenhamente ao poder, para perpetuar a roubalheira, o confisco, o enriquecimento ilícito, através da corrupção, uma vez que o poder político não dá chance de qualquer oposição ou denúncia sem punição. E a punição é rigorosa onde a pena de morte é uma grande realidade.  

Voltando ao nosso Brasil, está ficando complicado encontrar uma explicação para os fatos que aconteceram há pouco na Bahia. Estão nos deixando todos assombrados e perplexos com a horda de violência observada, em decorrência da greve da Policia Militar. Nos países árabes é a fome, o desemprego e a falta de liberdade. Aqui, o desemprego é baixo, não há fome endêmica, mas temos abundância de liberdade para reivindicar até no setor de segurança.

Isto nos faz pensar, porque muitos empanturrados pela liberdade se permitem o saque e o vandalismo de bens patrimoniais e outros delitos civis pelo fato de não haver policiamento. Ora, então o comportamento “civilizado” só ocorre quando estão sendo vigiados pela polícia? Isto é um absurdo. O respeito ao cidadão, à propriedade alheia e a outros requisitos de educação civilizada deve ser em qualquer condição. Começo a duvidar de que nós somos um povo realmente civilizado. Bastou o relaxamento do controle policial (aqui fora de nossa análise) para a selvageria se manifestar. Por uma visão antropológica, os brancos descendentes da linha europeia sempre foram povos bárbaros e conquistadores, pela história que aprendemos. Nos surpreende o povo baiano — com forte miscigenação da etnia africana, quando eles originariamente são de natureza altamente pacífica — agora nos oferecem atos de selvageria. A etnia negra — outros preferem dizer raça — sempre foi um povo dócil, feliz, alegre, mesmo com toda  discriminação que vem suportando há séculos. Não dá para entender, onde nacionalmente é marcante o perfil baiano, de bon vivant,  pacifico, alegre, extrovertido e de alta espiritualidade.

O pensamento de que,  com a falta de  policiamento, pode-se fazer o que você quiser (somos livres?) para saquear, roubar, assaltar, matar, violentar, estuprar, levanta a ponta do imenso iceberg de abandono da educação que vem sofrendo o país por décadas, diante deste absurdo comportamento moral, sócio/cultural.

* Sergio Sebold, professor, é economista. - sebold@terra.com.br