O garimpeiro Nelson  

Por Wander Lourenço 

Imagino que seja de bom alvitre antecipar que, quando assistir ao documentário A música segundo Tom Jobim, de autoria do mestre Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, o espectador irá se deparar com dois elementos primordiais para a compreensão da estratégia de concepção da obra cinematográfica: um exímio trabalho de garimpagem das divulgadas aparições do compositor e de sua obra musical e uma notável perícia de edição das imagens de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e seus célebres e múltiplos intérpretes de ocasião. Salvo engano, porém, o que se pode questionar no processo de exibição vem a ser a ausência de legendas, que não explicitam a sequência de origem pátria e estrangeira – a meu ver especificamente em se tratando de um público mais jovem, que se dispusera a prestigiar o ídolo dos nostálgicos antepassados, órfãos do abissal talento de tal saudoso e genial maestro. 

A opção do diretor de associar as legendas ao fim da película, neste sentido, pareceu-me um tanto quanto equivocada, vez que, numa abordagem desprovida de tradicional roteiro, a proposição de intercalar solos e duetos sem prelúdios narrativos pode afastar mais do que aproximar a plateia, mesmo aqueles fãs mais ávidos por reminiscências de um dos ícones da Bossa Nova. No decorrer das inserções imagéticas, o que de fato se percebe é um clima de decepção até mesmo em relação aos contemporâneos do eterno parceiro de Vinicius de Moraes. Isto não ocorre exatamente em razão da ausência de uma estética calcada em memoráveis encontros antológicos; todavia, sobretudo por suprimir introduções e diálogos que, sem dúvida, poderiam permear o registro sem o frágil sufrágio de que a linguagem musical bastaria... Cabe salientar que na rigorosa seleção houve fotografias já utilizadas no filme Vinicius. Aliás, por falar no Poetinha, quanta diferença entre a biografia narrada por Miguel Faria Jr e o quase mudo longa-metragem de Pereira dos Santos!... 

O fato é que o verão carioca e o Maestro deveriam fazer jus a uma abordagem mais aprimorada por parte da lavra dramatúrgica do diretor de Vidas secas e Rio 40 graus. Conforme já fora dito, não que a sensibilidade escape de aflorar em determinados momentos de esplendor e delícia, sobretudo aqueles que retratam Nara Leão, Nana Caymmi e Elis Regina, à luz das canções jobinianas. O mais curioso é que os cineastas Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, quiçá por veneração e respeito, em verdade pouco discorreram sobre os aspectos concernentes à análise crítica do documentário (?), neste símbolo repito a sutil grafia de Diegues. Os cronistas optaram por reminiscências da época do Cinema Novo ou pela analogia ao compadrio com a musa da Bossa Nova que fora casada com o primeiro, muito provavelmente em razão de serem afeitos ao saudosismo que o garimpeiro Nelson não soube captar por intermédio da áurea época de quase intraduzível percepção harmônica de natureza poética e instrumental.

Diga-se de passagem, o marasmo das interlocuções se sobrepõem de tal forma que o mais entediado dos mortais se questionaria pelo viés da falta de ilustração e obviedade: agora só falta Carlinhos Brown a entoar Luiza, em homenagem à recatada filha de Chico Buarque.  E não é mesmo que o baiano do turbante salta aos olhos do mais incrédulo discípulo de João Gilberto a desafinar feio tropeçando vocalmente nos versos da linda canção de Tom Jobim?...

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco