O país dos malfeitos

        Meu bom e querido pai Jedi dizia que no Brasil tudo muda de nome. Antigamente, era rebolado. Hoje, expressão corporal. Antes, era negão. Hoje, afrodescendente. Antes, mendigo. Hoje, população de rua. Antes, favela. Hoje, comunidade. Antes, viado ou sapatão. Hoje, homoafetivo Enfim, algumas mudanças no vocabulário são reflexos da onda do politicamente correto, muitas das vezes extremamente hipócrita, mas de que qualquer forma tira com justiça um pouco da discriminação e da negação social que as palavras carregavam para com as pessoas ou grupos que a representavam.

        Nessa onda do politicamente correto, o partido da situação há mais de uma década vem abusando, por meio de seus principais interlocutores, de um eufemismo que beira a tragicomédia quando transformam crimes contra o errário público por meio de falcatruas, superfaturamentos, desvios, comissões e toda a sacanagem típica da escória da humanidade, digo classe política, em lúdicos, fofos e infantis malfeitos. O presidente anterior cunhou para os pilantras que produziam dossiês apócrifos contra desafetos políticos, dentre outras barbaridades, o singelo adjetivo de aloprados. Neste contexto, o país dos malfeitos, onde inúmeras castas do poder público Judiciário, Executivo e Legislativo, vivem efetivamente numa outra realidade alternativa, muito diferente da grande maioria da população, completamente cor-de-rosa, com foros privilegiados e todas as possíveis e amorais mordomias que possam ser imaginadas, aqui fora a história é antagonicamente diferente.

        Enquanto a suruba com nosso dinheiro continua a todo vapor, privilegiadamente posso ver os malfeitos ambientais que ocorrem na cidade do Rio de Janeiro. Na Baía de Guanabara avisto o mais que moribundo Rio Iguaçu, no município de Duque de Caxias, e que por sua desgraça tem como vizinha a refinaria de Duque de Caxias da todo-poderosa estatal Petrobras, todo lambido de óleo. Não é a primeira nem a segunda vez que a situação se repete, e é denunciada aos órgãos responsáveis e por meio da mídia. Mas a situação se repete, visto que a todo-poderosa estatal financiadora de projetos mil parece estar mais do que blindada contra qualquer possível ação mais contundente por parte do poder público.

        O secretário Carlos Minc disse que num dos vazamentos a empresa seria multadas em 3 milhões de reais. Pois bem, cadê o dinheiro? A empresa pagou, ou ficou no deixa-que-eu-deixo? E o tal famigerado e tão divulgado TAC, por onde anda? Andou alguma coisa, ou ficou só no factoide? Depois fui com Polícia Federal coletar amostras do óleo derramado. Depois de coletado, segundo informações recebidas de terceiros, o laudo do Inea dizia que tudo estava normal. Como normal? Aquela borra de óleo toda estava dentro do estabelecido em lei? Depois o responsável pelo laudo da completa normalidade teve de voltar atrás, pois outro laudo de uma universidade séria determinou que inúmeros parâmetros estavam completamente fora dos padrões legais. Posso estar reproduzindo algum detalhe errado, mas a moral da história é o que setor responsável do Inea, digamos, se enganou brutalmente e que, para piorar, o responsável pelo laudo teve de se retratar diante do novo laudo. Vocês acreditam num negócio desses?

        Voltando ao voo de ontem, dia 06/02/20012, era clara a mancha de material oleoso por toda a extensão do Rio Iguaçu, da Rodovia Washington Luiz até a foz na Baía de Guanabara. Mas convenhamos, quem é que está preocupado com o Rio Iguaçu e com a cloaca da Baía de Guanabara? Me digam. Canais secundários também estavam todos melados de óleo e, por tudo que eu acompanho, vai ficar tudo por assim mesmo.

        Enquanto isso, no quebra-mar, na saída principal do sistema cloacal da Baixada de Jacarepaguá, escoava para a praia da Barra, até próximo às ilhas situadas em frente, vírus, bactérias, protozoários e cianobactérias, dentre as quais a potencialmente cancerígenaMicorcistys aeruginosa, velha conhecida dos que lutam pela recuperação do sistema lagunar. A mancha espalhava-se na orla do quebra-mar ao Pêpê, onde banhistas sem serem informados se contaminavam, felizes na santa burrice dos que nada sabem ou que acreditam nos “ótimos” serviços oferecidos pelo poder público.

        Na minha cidade, já existe uma resposta protocolar para os crimes, ou melhor, para os malfeitos cometidos pelo homem contra a Natureza, pois, por aqui, “a vítima de hoje é o réu de amanhã” e se “der merda não é comigo”, lema eternizado pelo ex-presidente cefalópode. Neste contexto cultural fatalista e irresponsável, típico do poder público tupiniquim, quando morre peixe, a culpa é da frente fria ou de alguma alga assassina. Quando vaza cianobactéria para o mar, mantenhamos a calma, pois pode ser muita coisa além da tal cianobactéria e por enquanto podem se divertir à vontade, pois, no máximo, na atual situação os freqüentadores da praia poderão pegar de uma leve micose a uma diarreia ou hepatite. Caso haja a microcistis, aí câncer de fígado apenas nos casos mais extremos, e apenas daqui a alguns anos, e, portanto, nada para se preocupar. E assim nada se resolve, todos ficam em suas zonas de comodidade, e quem adoecer que procure a ótima rede de saúde pública, onde receberá atendimento “imediato” e de “excelência”.

        Em resumo, nada muda, muita gente com o rabo preso, sonhos e objetivos pessoais onde prevalece outro lema Farinha pouca, meu pirão primeiro, e dessa forma a contagem regressiva transcorre sem ser incomodada pelas autoridades, muito preocupadas agora com o Rio+20, em que, como já disse, vão se gastar muitos milhões de reais para se falar daquilo que não irá se implementar, onde sob os holofotes da mídia muito político vai cacarejar sem parar, mostrando toda sua sabedoria ambiental, e as lagoas e baías vão continuar as latrinas e depósitos de lixo de praxe.

        Que Deus, ou o nome que queiram dar, tenha paciência pelas crianças, pelos animais e plantas por tanta sacanagem que cometemos ou deixamos cometer. Que ele nos perdoe por tanta arrogância no país dos singelos malfeitos cometidos por inocentes aloprados.

Mario Moscatelli é biólogo e ecologista. -  [email protected]