Crack: alucinação do viciado e da sociedade 

        Em recentes notícias vindas da cidade de São Paulo pudemos constatar a magnitude do estrago que o crack, recente droga introduzida no mercado negro do vício, promove na sociedade brasileira. As imagens e as muitas histórias dos viciados paulistanos é apenas um recorte do que essa droga pode promover no indivíduo e na sociedade — a operação policial que foi organizada para desmantelar a cracolândia em São Paulo tornou visível para o país um flagelo que hoje atinge mais de 90% das cidades brasileiras.

        Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha no último mês, os dados são mais apavorantes do que imaginávamos: 63% dos viciados da cracolândia paulistana usam drogas há mais de cinco anos, mais da metade começou a fumar antes dos 20 anos e 6% com menos de 10 anos; 65% dos usuários também utilizam outras drogas, como a maconha e a cocaína, o que amplifica ainda mais o poder de destruição sobre o organismo.

        As estatísticas são paulistanas, mas a tragédia é brasileira. Seja nos grandes centros ou no interior, nas festas raves ou até nas universidades, o fato é que o crack vem minando parte da juventude brasileira com seu potencial devastador. Droga em forma de pó é usada inalando seu conteúdo alucinógeno, cujos vapores impregnam o indivíduo e rapidamente afetam seu cérebro, centro das sensações, emoções e julgamentos.  A sua volatilidade permite que a droga atinja o cérebro em 10 a 15 segundos após ter sido inalada, tempo curtíssimo para deturpar as sensações e gerar uma falsa impressão de bem-estar e satisfação pessoal.

        Os estudos mostram que a maior parte dos frequentadores dessas cracolândias são jovens, de baixa escolaridade, vindos de famílias de baixo poder aquisitivo e com uma vida social sem expectativas, e que sucumbiram aos efeitos alucinógenos e momentâneos que a droga oferece. Os craqueiros podem estar na rua, à margem da sociedade que os observa, no interior do país onde a droga serve como energético para o trabalho braçal na lavoura, ou dentro de condomínios em áreas nobres das grandes cidades; mas todos têm um gênero em comum: perderam sua identidade, sua dignidade  e se excluíram de uma vida social à qual são merecedores.

        E as sequelas são muitas, físicas e sociais, que variam desde alterações no raciocínio e compreensão, até estágios graves de demência, financiados pelos efeitos químicos dessas substâncias sobre o cérebro. Com a falta de censura e julgamento, advêm os efeitos secundários da dependência: traumas, violência, gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis e morte.

        A morte desses indivíduos pode ser física, por ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais ou pela violência, comum no meio conturbado e dominado pelo poder em que estão inseridos —  em cinco anos de uso da droga um terço dos usuários sucumbiu aos seus efeitos. Mas há também uma morte social, que muitos enfrentam. Seja pelo alijamento social nas cracolândias ou no isolamento preterido pelo dependente em relação aos amigos e à família, a questão é que estamos perdendo pessoas para o submundo das drogas ilícitas, e muitas vezes essa forma é irreversível.

        A solução para esse grave problema social não é só o cerco policial aos traficantes e o desmantelamento das bocas de fumo na periferia; é precisa, sem dúvida, uma operação orquestrada entre o Estado e a sociedade a fim de retirar esses desafortunados do mundo da dependência química. A nossa luta mal começou, em relação a outros países adiantados que reduziram os efeitos do crack em suas comunidades; se formos seguir os bons exemplos, que deram certo na luta contra a droga e o crime organizado, será preciso retirar essas pessoas do vício e reintroduzi-las na sociedade à qual pertenciam. Oferecer atenção básica de saúde, reabilitação cognitiva, suporte psicoterápico, educação e oportunidades para se desintoxicarem será essencial para que iniciemos uma nova etapa no combate às cracolândias. A repressão policial por si só não resolve o problema, apenas dissemina o mal e dá a falsa impressão de resolutibilidade para a questão, uma atitude alucinógena para a sociedade, assim como a droga faz com o organismo do dependente.

Vanderson Carvalho Neri é médico neurologista. [email protected]