O Haiti é aqui (continuação)

Ao terminar a última crônica, ficou-me uma sensação de falta, de vazio.  Como algo que – estou segura que os colegas escritores ou jornalistas me entendem – deveria ter sido dito e não foi.  Ora, as redações de jornais têm suas regras e cânones.  E uma delas é que os prazos se cumprem ou senão não sai.  E lá foi o artigo assim mesmo.         

Hoje volto ao tema  consciente do que me inquietava naquele fim de noite, quando terminei minha reflexão sobre o calvário que padecem os haitianos que desejam entrar no Brasil para aqui trabalhar e conseguir visto. Faltava o outro lado da moeda, sem a qual a figura não se vê completamente.  Pois a questão abordada é como uma moeda de duas faces. Se não se vê uma delas, falta um elemento constitutivo e essencial ao quadro.         E o elemento em questão é o pronunciamento do presidente Obama, dos EUA, comunicando sua decisão de facilitar o ingresso no país de turistas vindos de países emergentes como China, Índia e… Brasil.  Agora, o inferno por que passa a classe média brasileira nos bancos da Polícia Federal e do consulado americano aguardando o  passaporte e o visto, se não terminar, vai ser grandemente amenizado.  São 40% a mais de vistos que o presidente promete.  As famílias se animam.  Vão sofrer menos para poder levar seus filhos à Disneylândia, Meca do sonho, da fantasia e da imaginação infantis.         

Duas coisas chamam a atenção neste fato.  A primeira é a alegria demonstrada pelo Brasil.  Fico sempre com um nebuloso sentimento de vergonha quando vejo isto acontecer e me lembro do saudoso e neste ano centenário Nelson Rodrigues.  Temos mesmo um incurável complexo de cachorro vira-lata.  Sobretudo, frente à grande nação americana, irmã do Norte.  Qualquer gesto de cordialidade de lá emitido é por nós vivido e agradecido com alegria e gratidão desmesuradas.          

Quando o anúncio do presidente Obama se tornou conhecido pela mídia, o ministro do Turismo, Gastão Vieira, comemorou entusiasticamente. Declarou que a decisão de facilitar o ingresso de brasileiros que viajam aos Estados Unidos mostra que o país está ganhando importância no cenário mundial. E imediatamente acrescentou que isso também pode abrir caminho para que os estadunidenses tenham mais facilidade para viajar para o Brasil e conhecer nosso país.        

O segundo elemento que chama a atenção é o fato de que, simultaneamente a isto, seres humanos em situação de desespero e extrema pobreza como os haitianos que se amontoam na fronteira e desejam entrar em nosso país para trabalhar são restringidos ao máximo em sua demanda.  Facilita-se o trânsito para o divertimento mas restringe-se para abrir uma esperança e uma saída a famílias inteiras que querem apenas sobreviver.  Estimula-se o turismo de consumo enquanto a migração laboral é estrangulada, atirando muitas pessoas em um abismo sem futuro.         

Ninguém duvida de que a decisão do presidente Obama tem uma motivação econômica não de todo negativa.  Os EUA estão passando por uma grave situação de desemprego, e essa decisão pode abrir novas frentes de trabalho.  Tampouco se anatematiza totalmente o pronunciamento do ministro.  É bom para a economia brasileira e para o nível de emprego que o turismo cresça.         

O que choca é o fato de sequer vir à baila o apelo desesperado que os cidadãos de uma nação pobre, miserável, golpeada por toda sorte de infortúnios vem fazer quando bate a nossas fronteiras.  Parece que o famoso coração cordial brasileiro se torna congelado e insensível à demanda dos haitianos impedidos de entrar para trabalhar honestamente e tentar um futuro melhor para seus filhos.         

Voltando a Caetano Veloso, há que pensar no Haiti, rezar pelo Haiti. Pois, o Haiti é aqui.   Sobretudo em momento no qual não se pode mais fazer outra coisa do que rezar, uma vez que as leis vigentes não protegem esses párias do progresso que erram sobre a terra buscando um lugar para viver e se estabelecer.         

E voltando sempre de novo e uma vez mais à Palavra de Deus, há que tomar consciência de que a Aliança do Altíssimo foi feita com um povo errante sem lugar para ficar e morar.  Com esse povo Deus fez um pacto amoroso, a esse povo Deus deu uma terra, um templo, uma identidade. E quando perdeu tudo isso, não lhe retirou seu apoio e presença.  Há que pensar e rezar pelo Haiti, porque Deus está com os haitianos e denuncia sua situação. Fala por eles e é seu eterno advogado e defensor.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. - [email protected]