Nova inteligência 

Até a segunda metade do século passado uma pessoa praticava no final de sua carreira as competências adquiridas em sua juventude e as transmitia a seus filhos ou aprendizes. Hoje as competências se mostram como algo móvel, transformadas em fluxo, alimentando as operações eficazes.

O ciberespaço fez emergir um espaço de transação qualitativamente diferente, no qual os papéis respectivos dos consumidores, dos produtores e dos intermediários se transformaram profundamente. Os produtos e serviços mais valorizados atualmente são interativos, o que significa que a produção de valor agregado se desloca para o lado do “consumidor”. O “produtor” habitual (professor, editor, jornalista, produtor de conteúdos em geral) luta para não se ver relegado ao papel de simples fornecedor de matéria-prima.

A informação que corre no ciberespaço é virtual, na medida em que pode assumir significações diferentes e imprevisíveis. Virtual, porque aquilo que está em jogo é a significação que a informação pode assumir num dado contexto; virtual, porque se pode dar um documento sem perdê-lo e reempregar partes dele sem destruir o original.

O desenvolvimento da comunicação assistida por redes digitais aparece como a realização de um projeto de constituição de novas formas de inteligência coletiva, mais flexíveis, mais democráticas, fundadas sobre a reciprocidade e o respeito às singularidades, que transformam ou aumentam as capacidades de cálculo, de raciocínio, de aprendizagem.

O acesso ao processo intelectual do todo informa o de cada parte, indivíduo ou grupo, e alimenta em troca o do conjunto. O ideal da inteligência coletiva é reconhecer que a diversidade das atividades humanas, sem nenhuma exclusão, pode e deve ser considerada, tratada, vivida como “cultura”.

Jamais pensamos sozinhos, mas sempre na corrente de um diálogo ampliado. O universo de coisas e ferramentas que nos cerca e que compartilhamos pensa dentro de nós de incontáveis maneiras distintas. Para tomar um exemplo, uma parte crescente dos conhecimentos se exprime hoje por modelos digitais interativos e simulações, o que era evidentemente impensável antes dos computadores com interfaces gráficas intuitivas.

Compreende-se por que a inteligência é atravessada de uma dimensão coletiva: porque não são apenas as linguagens e os artefatos que pensam dentro de nós, mas o conjunto do mundo humano. Agir sobre o seu meio, por pouco que seja, equivale a erigir o mundo comum que pensa diferentemente dentro de cada um de nós.

A inteligência coletiva educa o gosto e o senso crítico, encoraja a pesquisa livre e responsável, valoriza o julgamento pessoal.

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.