TAM, Infraero e o caos aéreo 

A falta de investimentos na infraestrutura aeroportuária – novos aeroportos, construção de novos terminais e pistas, instrumentos modernos de navegação tipo ILS e mais controladores de vôo – é só uma parte do caos aéreo.

Tudo isso é fruto da incompetência das autoridades federais que, não obstante os sistemáticos discursos de campanha, logo se esquecem do que prometeram, após as eleições. Quem não se lembra do famoso 3º aeroporto de SP prometido pelo ex-ministro Jobim em 2007 e que não saiu do papel?

Afinal, por que as autoridades iriam se preocupar com os problemas do cidadão comum, se elas viajam sem pagar nada nos seus jatinhos e helicópteros e não enfrentam as filas e mazelas dos passageiros que pagam a passagem com o suor de seu trabalho?

Se já não bastasse essa total inércia das nossas autoridades, ainda temos que enfrentar a desorganização da maioria das companhias aéreas, hoje concentradas no duopólio TAM/GOL (sem falar no ridículo serviço de bordo com barrinhas de cereal e amendoim torrado!).

Relato a mais recente experiência que vivi, no dia 21 de dezembro de 2011, quarta-feira, quando estava voltando do Peru pela empresa TAM, voo JJ 8067. Por mais incrível que possa parecer, a viagem entre Lima e Guarulhos, de quase cinco horas, foi feita nos mesmos moldes dos voos internos, ou seja, num avião Airbus A-320 com poltronas apertadas sem espaço para as pernas, como se estivéssemos numa lata de sardinha! Faço essa observação, visto que o voo de ida, no dia 18/12, foi num avião Boeing 767-300 da empresa Lan Chile, muito mais confortável.

Pois bem, o mais curioso, para não dizer ridículo estava por vir. Como eu estava sentado na poltrona 14A (corredor), dei-me conta de que a fileira 13 tinha muito mais espaço que a minha. A poltrona 13A estava ocupada por um senhor que, segundo ele, devido a problemas de circulação, teve que pagar US$ 47,00 (quarenta e sete dólares) para ter mais espaço. Faço constar que as duas poltronas ao lado dele estavam vazias.

Iniciado o voo, descobri que as passageiras que estavam sentadas ao meu lado eram esposa e filha do passageiro que havia pagado por mais espaço. Conversamos com a chefe das comissárias da classe econômica e perguntamos a ela se não haveria a possibilidade de as duas passageiras irem juntas na fileira 13, já que as duas poltronas estariam todo o tempo desocupadas e não haveria nenhum custo adicional para a TAM.

Com a peculiar empáfia como se fosse a dona da TAM, disse de forma clara que, se a esposa e a filha quisessem mais espaço, deveriam ter pago por ele quando fizeram o check-in e que ela não liberaria os dois assentos vagos. Um absurdo, pois não estávamos pedindo que alguém trocasse os seus folgados assentos por outros apertados, mas, sim, que se pudessem ocupar aqueles que permaneciam vazios. E assim transcorreu a viagem com a família separada, como resultado da prepotência e por pura falta de amabilidade da chefe das comissárias. Pergunto: que tipo de treinamento têm estes funcionários?

Vamos em frente, pois tenho algo mais para contar. Antes de chegar ao local de controle da Polícia Federal, lá na frente estava uma funcionária com um jaleco da Infraero que aos berros gritava como se estivesse numa liquidação de fim de feira livre: “brasileiros à direita, estrangeiros à esquerda”. Não seria mais correto que ela tivesse sido treinada para que se postasse logo na entrada do salão e com voz baixa orientasse os passageiros como proceder?

Passada esta etapa, fui para o embarque para Salvador no voo JJ-3170, feito num avião Airbus A-321, conforme está no e-ticket. Vi no painel que o embarque seria no portão 1B, ou seja, pelo remoto (onde não existe finger, aqueles corredores pelos quais embarcamos diretamente no avião e o transporte até a aeronave é feito por ônibus, pois os aeroportos já estão totalmente saturados). Não é preciso dizer que o salão de embarque no térreo estava entupido, pois lá há outras duas portas, a 1A e 1C.

Não obstante ter 61 anos e poder usar a preferência, os anos de experiência me ensinaram como são estes embarques – não há nenhum controle –, e assim preferi ir no último ônibus. Quando desembarquei do mesmo, confesso com toda pureza d’alma que vi a cena mais desrespeitosa, absurda e patética em todos esses 55 anos que viajo de avião.

Às 23h15, havia uma fila de mais de 100 pessoas (e outras tantas dentro de duas vans) esperando para embarcar sob um vento frio e cortante e, ainda por cima, respirando o ar poluído oriundo das descargas (havia outros aviões na proximidade) de querosene das APU (do inglês Auxiliary Power Unit, aquela pequena turbina que fica na parte traseira dos aviões e que serve para gerar energia enquanto o avião está parado).

Por que a TAM não fez um embarque rápido e não procedeu como normalmente é usual nos aeroportos onde não existem fingers e o embarque e desembarque são feitos pelas portas dianteira e traseira? Ou será que a Infraero, que tem uma receita de mais de US$ 1 bilhão por ano, não tinha outra escada para ajudar no embarque?

O caos aeroportuário e o despreparo das empresas aéreas, da Infraero e da Anac já são rotina para o cidadão comum. A Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 serão uma ótima oportunidade para mostrar para o mundo como a nossa realidade é totalmente diferente dos discursos oficiais.

* Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento.