Conhecimento autêntico 

Estamos hoje em face de um desenvolvimento de especialidades que nos possibilitam conhecer e modificar as situações do homem mas nos fazem esquecer de refletir sobre o problema de sua condição. Para os antigos gregos, o conhecimento é como uma árvore. O homem deve pôr-se à sua escuta, pois a árvore pode dar-lhe simultaneamente a mensagem vivida da terra em que ele habita e a mensagem do céu para o qual ele tende.

Desta árvore já não conservamos senão os ramos, e perdemos de vista não somente o tronco mas as próprias raízes e o solo no qual elas se entranham. Falamos de incontáveis ramos do saber, mas o desenvolvimento das especializações faz com que tenhamos perdido de vista toda a ideia da árvore do conhecimento.

Hoje as nossas máquinas e os nossos artefatos separam-nos do simples e do conhecimento de nós mesmos.  O conhecimento de si só tem significação e valor se desembocar, não sobre um conhecimento das aptidões que permitem reconhecer a competência de cada um mas sobre um conhecimento da pessoa que ultrapassa a individualidade de cada um na medida em que leva a meditar sobre a alma — e, por conseguinte, sobre o bem.

Aquilo a que se opõe Sócrates é um conhecimento de si que se limitaria a inventariar o saber especializado. A dúvida socrática é uma recusa daquela memória que incide apenas sobre conhecimentos exteriores — com efeito, o que dizer da excessiva consideração dos fatos nos dias de hoje?

Hoje, nosso conhecimento da árvore leva-nos a definir esta por toda uma série de atributos e de conceitos que nos mascaram a árvore de vida. Para muitos, o conhecimento se confunde com a montagem e retenção de hábitos.

Sócrates fazia menção de um “demônio” interior que o advertia: “É uma espécie de voz que, quando se faz ouvir, me desvia sempre do que me proponho fazer, mas jamais me incita a isso”. De fato, é ele que faz com que toda linguagem seja tradução de um pensamento e meio posto a serviço do conhecimento autêntico.

* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.