Porque inexiste Amor nas elites

Eis o grande ônus da casta aristocrática moderna: ausência de Amor devido à sobrepujante atmosfera de poder reinante dentro de seu ambiente. Sendo que a usurpação cometida pelo poder temporal representada pela casta aristocrática — contra a autoridade espiritual — representada pela casta sacerdotal — fundamentou tal situação desde o Renascimento ao fomentar o surgimento do Estado-nação posteriormente tornado laico.

A violenta queda da simbólica noblesse oblige a partir da Idade Moderna foi ilustrada com magnífica excelência por Cervantes através da corja vociferante contra Don Quijote de la Mancha, nobre homem desesperado diante de tanta covardia moral existente ao seu redor. Basta este exemplo, considero, para se compreender o porquê de os cavaleiros medievais inspirarem não apenas os trovadores da época mas os puros de coração até os dias de hoje, homens representantes de uma nobreza forte, mas essencialmente piedosa. Sim, também o mítico Arthur foi tutelado por um representante do mundo espiritual, Merlin.

Havia no Medievo a justa conexão da nobreza com o religare, exatamente o freio necessário para que o mando aristocrata não se transformasse em vil rapinagem. Carlos Magno foi coroado imperador pelo papa Leão III. E no Brasil, inclusive, a coerência tradiconal foi plenamente respeitada, sendo o grande dom Pedro I também coroado como imperador por um membro da autoridade espiritual. Porém, no caso brasileiro, as ambições modernistas, impulsionadas pela Revolução Francesa ao colocar a “deusa razão” no trono de Deus, sufocaram todas as chances de um crescimento lento, mas seguro, do que se denomina, metafisicamente falando, Tradição.

O sentido das ideias de Dostoiévski — “Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido” — e de Eric Voegelin — “A morte do espírito é o preço do progresso” — dificilmente ressoa com a necessária profundidade na alma do homem pós-contemporâneo. Mas, como poderia ser diferente, se ainda hoje as mentiras comunistas travestidas de retóricas pseudodemocráticas se imiscuem sorrateiramente nas elites dominantes fomentando a ode ao “trabalho” — mas ignorando cinicamente o devido respeito ao “ofício” — através de Estados balofos e burocráticos?

Já com Hesíodo a Idade de Bronze — no crescente afastamento humano de Deus — estava plenamente diagnosticada. Mas também Platão elucidou a questão sobre os malefícios de uma liderança sem o reto guiamento espiritual. A melhor resposta prática para esta situação ocorreu no arrogante período do Império Romano, quando Herodes era rei da Judeia. Afinal, jamais estará fechada a iluminação proveniente do Alto para aquele que compreender o significado de o próprio Filho de Deus ter nascido em um estábulo.