Fim de ano, tempo de refletir

        Fim de ano é tempo para refletir e iniciar novos caminhos. Os mais velhos têm o dever de ajudar os mais jovens a buscar o sentido essencial das coisas.        Seguem-se dez dicas que me parecem úteis para o cotidiano:

1 – Não ser avaro da palavra. Falar com as pessoas que estão a nosso redor. Uma palavra de estímulo, no momento preciso, pode valer mais que um tesouro.         

2 – Na vida do direito, uma coisa é a lei abstrata e geral. Outra é o caso concreto, dentro do qual se situa a condição humana. É sábio o juiz que tempera a lei com um olhar de ternura.        

3 – Para as pessoas, na sua vida particular, o mesmo princípio é aplicável quando se trata da lei moral. A moral não existe para escravizar, mas para libertar.         

4 – É bom que os cidadãos em geral conheçam um pouquinho de direito porque todas as pessoas, de alguma forma, acabam envolvidas no "universo jurídico".        

5 – Conselhos aos advogados: comprometer-se com a defesa da dignidade humana; ser fiel ao cliente para salvaguardar o contraditório; enfrentar todos os obstáculos e perigos a fim de manter-se independente à face dos poderes e dos poderosos.        

6 – Conselho aos que estão em dúvida se ingressam com um processo na Justiça: se for possível, evite a demanda. Um acordo razoável é quase sempre melhor que o litígio incerto e caro.        

7 – Conselho aos poetas: visitem os tribunais. Tentem convencer os juristas para que coloquem poesia no direito. O direito e a poesia são vizinhos,  a poesia engrandece o direito.        

8 – Conselho ao povo organizado: exigir que os magistrados tirem as vendas de seus olhos, quando essa venda impedir de ver o sofrimento dos jurisdicionados. O juiz está de olhos vendados para não favorecer por simpatia  ou perseguir por animosidade. Se por olhos vendados se entende a Justiça incapaz de perceber as dores humanas, pobre do povo que tem essa justiça.        

9 – Conselho aos legisladores municipais, estaduais e federais: sejam cuidadosos na feitura das leis. Boas leis são importantes para que o país progrida e o povo seja feliz.         

10 – Conselho a mim mesmo: não esquecer o rosto de Edna, a grávida que eu libertei. Que a lembrança desse rosto me socorra nos momentos de desânimo ou tristeza. Que eu guarde sempre sua lição de generosidade, ao prometer que seu filho, se fosse homem, teria o nome do juiz, promessa que não se cumpriu porque deu à luz uma menina que se chamou Elke, em homenagem a Elke Maravilha. 

João Baptista Herkenhoff, magistrado, é professor na Faculdade Estácio de Sá do Espírito Santo e escritor. E-mail: [email protected] Homepage: www.jbherkenhoff.com.br