Cai produção de petróleo e aumenta importação de derivados

Como já abordei outras vezes neste Jornal do Brasil, a real situação do setor petrolífero não condiz com a propaganda estatal, e afirmo que as metas para produção de petróleo e refino previstas no Plano de Negócios 2011–2015 estão cada vez mais distantes. Para que não fiquem dúvidas em relação à minha afirmação e algum desinformado faça ilações, analisemos os números oficiais da Agência Nacional de Petróleo (ANP) entre janeiro e agosto/2011, inclusive (www.anp.gov.br).

A produção de petróleo que vinha crescendo paulatinamente – 7,62% entre 2009 e 2008 e 5,35% entre 2010 e 2009 – vem apresentando um baixíssimo crescimento este ano. Comparando os números do período citado mais acima, a produção de 2011 cresceu somente 1,63% em relação a 2010; 505,958 milhões de barris (mb) e 497,841 mb), respectivamente. Com esse pífio percentual de crescimento na produção de petróleo, para que se alcançassem as metas previstas no PN-2011/2015, seria necessário que a produção tivesse um incremento médio anual de 9,5% até 2015 e de 13,6% até 2010.

No entanto, a situação mais grave está na cada vez maior importação de derivados. Entre 2011 e 2010 houve um aumento de 3,26% no volume; 116,191 mb e 112,518 mb, respectivamente, mas o dispêndio aumentou 38,94%; US$ 11,636 bilhões e US$ 8,375 bilhões. Como em 2011 a receita com exportação foi de somente US$ 6,705 bilhões, o resultado foi um déficit de US$ 4,930 bilhões. Tal número projeta um déficit na conta-derivados da ordem de US$ 7,396 bilhões!

Dos 13 itens de derivados listados pela ANP no que se refere à importação, 90,79% do volume e 86,44% dos gastos estão concentrados em somente cinco itens: 1º) óleo diesel, 30,46% e 38,50%; 2º) nafta, 25,32% e 26,14%; 3º) coque, 16,29% e 4,74%; 4º) GLP, 12,38% e 9,16%; e 5º) querosene de aviação, 6,34% e 7,90%.

A gasolina tipo A (sem mistura de etanol anidro) ainda representa pouco, sendo 2,75% no volume e 3,48% nos gastos, mas a tendência são estes valores aumentarem em função das importações cada vez maiores. Em todo o ano de 2010, importamos um total de 3,177 mb com custo total de US$ 284,758 milhões (US$ 89,63/b), enquanto em 2011 já importamos 3,198 mb ao custo de US$ 404,589 milhões (US$ 126,48/b).

Qual o motivo para tais gastos? A resposta está na ponta da língua de quem entende do setor: o governo se preocupou em fazer propaganda com a produção e simplesmente deixou de lado o refino. Não está por demais recordar que a última refinaria inaugurada no Brasil foi há 30 anos!

O resultado está aí. As refinarias, não obstante as várias ampliações e reformas, já chegaram ao limite de suas capacidades. E a situação tende a agravar-se ainda mais, visto o crescente aumento na frota, seja de veículos leves e pesados, seja o adiamento para a entrada de produção das novas refinarias.

Como já analisei em textos anteriores, a situação só não deu um tremendo rombo na balança comercial brasileira por dois motivos. Primeiro, a produção de etanol. Não obstante uma quebra em torno de 8% na safra 2011/2012, e uma queda 24,07% no consumo do etanol hidratado em relação a 2010, o combustível renovável tem dado uma grande ajuda para que as contas do país não estourem. Somando o hidratado (direto da bomba) e o anidro (misturado à gasolina), foram vendidos 81,263 milhões de barris até agosto. Considerando o preço da gasolina importada (US$ 126,48/b), teremos um total de US$ 10,278 bilhões que deixaram de ser gastos com importação do derivado fóssil poluente; valor esse equivalente ao custo de uma refinaria.

Segundo, as exportações de petróleo da ordem de US$ 14,525 bilhões contra importações de US$ 9,385 bilhões, o que deu um superávit de US$ 5,140 bilhões. Mas fica uma dúvida no ar: se a produção continuar caindo como está acontecendo em 2011, no futuro haverá sobra para exportar?

Recordemos que há três anos a ANP não faz nenhum leilão de campos novos para exploração. E enquanto não se resolver essa oportunista repartição dos royalties do pós e pré-sal, comandado pelos estados não produtores, que querem receber bilhões de reais sem produzir uma só gota de petróleo, nada se pode fazer.

Faço uma pergunta: será que essa quebra na produção de petróleo é por falta de equipamentos, ou se deve ela à diminuição na produção dos chamados campos maduros que já alcançaram os seus limites?

Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento