Importação de etanol e gasolina: faltou gestão

Foram vários os textos que escrevi neste Jornal do Brasil a respeito do setor de combustíveis mostrando e alertando sobre o problema da diminuição da oferta de etanol (anidro e hidratado) e a crescente importação de derivados de petróleo, não só devido à falta de refinarias mas, também, devido à crise no setor sucroalcooleiro, e sua consequência na balança de pagamentos.

Os fatos recentes confirmaram in totum as minhas previsões, com o agravante de que tanto os volumes de etanol como os de gasolina a serem importados serão muito maiores, com gastos bilionários na importação dos mesmos, como veremos mais abaixo. A verdade é uma só e não adianta as autoridades gastarem tempo em dar declarações vazias e que, obviamente, não convencem a população: todo esse imbróglio que vemos hoje no setor de combustíveis, deve-se única e exclusivamente à ingerência e à falta de gestão do governo federal.

Há décadas, a maioria dos cargos mais importantes do Ministério de Minas e Energia – aqueles que são da cota do Executivo e do Legislativo – vêm sendo ocupados sucessivamente por políticos ou seus apadrinhados que pouco entendem da área. O resultado está aí: falta uma política estruturante e duradoura para o setor, somada ao fato de que há 31 anos foi inaugurada a última refinaria no Brasil.

Falou-se aos quatro ventos das maravilhas do pré-sal, da autossuficiência na produção de petróleo, sujaram-se as mãos com o precioso líquido, a maior capitalização do mundo (da Petrobras), mas esqueceram do mais importante: uma eficiente gestão do setor. As consequências estão aí, bem visíveis, e fazem parte do dia a dia do cidadão comum que acreditou nos veículos flex: aumento do preço do etanol em plena safra; diminuição da porcentagem de etanol na mistura da gasolina – passará de 25% para 20% a partir de 1º de outubro –; importação de gasolina (fato esse que já não mais fazia parte do nosso calendário); e as ações da Petrobras que se desvalorizam a cada dia que passa (desde janeiro de 2010 até junho de 2011 caíram 43%, sendo 24% só em 2011).

Nesse sentido, são dignas de todos os elogios as corajosas e objetivas declarações (raras no meio estatal) do diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa (Petrobras: Gasolina importada suprirá mistura menor de etanol, Agência Reuters, 02/09/11), que, sem meias-palavras, definiu a situação do refino e abastecimento de derivados: "Fizemos no ano passado um esforço para aumentar a oferta, mas agora não temos mais condições de aumentar a produção de gasolina. Com as refinarias existentes não dá, chegamos no nosso limite”. (...) "Então, qualquer variação de demanda – e obviamente que a mudança dos 25% para 20% do anidro na gasolina vai provocar um aumento de demanda – vai ser via importação, não tem saída".  

As consequências da importação de gasolina como resultado da falta de refinarias e da diminuição da oferta de etanol trará enormes prejuízos ao país.

Analisemos os números oficiais e façamos as contas. Entre janeiro e julho de 2011 (fonte: anp.gov.br) foram vendidos 123,426 milhões de barris (mb) de gasolina C (gasolina A + anidro). Desse total, 25% foram de etanol anidro, ou seja, 30,856 mb, o que dá um volume líquido de 92,570 mb de gasolina. Se a mistura tivesse sido de 20%, o volume seria de 24,685 mb e 98,741 mb, respectivamente.

Concluímos que uma simples diminuição de 5% de anidro na mistura com a gasolina teria, no período citado, um acréscimo de 6,171 mb desse derivado, média de 881 mil barris/mês (140 mil m³/mês). Em se mantendo essa média de consumo, a partir de 1º de outubro esse será o volume adicional de gasolina que a Petrobras terá que importar.

Ora, considerando que em 2011 (até julho, inclusive) importamos 2,599 mb de gasolina A com custo total de US$ 330,33 milhões – média de US$ 127,10 por barril –, a Petrobras terá um gasto adicional mensal de US$ 112 milhões (881 mil barris x US$ 127,10/b), o que alcançará US$ 1,344 bilhão por ano! E o que o é mais grave: o litro da gasolina importada é em torno de R$ 0,20 mais caro do que o da Petrobras na refinaria.

Tal situação prejudicará o resultado financeiro da empresa e consequentemente os acionistas, fruto da absurda interferência e pressão do Executivo que, alegando o controle da inflação, insiste em manter o preço da gasolina artificialmente congelado abaixo do valor de mercado. 

Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento