Tempo bom

Voltei há pouco de quatro dias de férias, no Rio Grande do Norte, pelas quais pagarei em dez prestações no cartão de crédito. Natal é uma cidade realmente linda, com praias que lembram aquelas fotos de catálogo de viagem. E o povo é uma meiguice só, menino! Que gente hospitaleira! Todo mês, quando for pagar a fatura do cartão, vou lembrar-me do seu sorriso, do seu jeito carinhoso e de como fui bem tratado na Cidade do Sol. Ligo o computador e leio o jornal para me atualizar lendo o JB.

Foram dias em que fiquei desligado de tudo, sem jornal, rádio ou televisão, até porque não havia energia onde me hospedei. Mas o visual, como já relatei, era maravilhoso. Uma verdadeira volta no tempo. Como dizia o comediante Lilico: "Tempo bom, não volta mais...".

Tempo bom! Foi no que vim pensando no voo de volta para o Rio de Janeiro. Reparei que as comissárias de bordo, antigas aeromoças, não fazem mais aquele balé do passado. Para quem não se recorda ou não chegou a assistir a essa linda cena: parecia um balé, quando elas encenavam a colocação da máscara de ar, o afivelamento do cinto de segurança e o seu movimento com os braços na hora de apontar a direção das saídas de emergência. Era muito lindo! Esse “balé” inspirou Ziraldo e Gugu Olimecha a criar a cena “balé das aeromoças” para a peça O último dos Nukupirus, uma homenagem, profundamente política, ao teatro de revista, com músicas de Chico Buarque.

Para outros, “tempo bom” é o que sufoca a paz, gera o medo e produz morte em grande escala, como a produzida por Anders Breivik, o norueguês que entrou para a história ao conseguir provocar, no dia 22 de junho, um dia ainda mais trágico do que os enfrentados por seu país na Segunda Guerra Mundial. Os motivos, no entanto, foram os mesmos da Década de 1940: ideias extremistas e xenofobia.

“Tempo bom”, para alguns, é morrer aos 27 anos por consumo excessivo de drogas e álcool. Realmente, é back to black, de Jane Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Kurt Cobain, todos encontrados sozinhos em casa. Ao terminar de ler todas as notícias lembro-me dos meus quatro maravilhosos dias de férias na terra de Jerônimo de Albuquerque, cortada pelo lindo Rio Potengi e sinto vontade de retornar àquele insulamento, ao autoexílio. Mas, de estalo, volta à minha memória o bordão “tempo bom, não volta mais...”.

Os voos de hoje não servem mais lanche. Hoje, se você quiser comer, compra e só pode pagar em dinheiro. Nada de cartão. Se não tiver dinheiro, será agraciado com um saquinho com dez amendoins, um copo de água e um refresco. É isso que vai consumir durante três horas de viagem ou, como diz um amigo meu, durante seis horas, três para ir e três para voltar. Pior ainda, é o fato de você saber que o “tempo bom” não volta mais até no Ministério dos Transportes, onde as demissões por envolvimento em corrupção estão sendo feitas em doses homeopáticas. A vassoura da presidente varre aos poucos e enquanto isso o trabalho para, já que ninguém sabe quem será o próximo. E os que querem trabalhar não o fazem, porque estão subordinados a futuros demissionários.

Cabe aqui outro bordão do mesmo comediante: É bonito isso...?

Luiz Carlos de Sá Campos, mestre em Teoria Literária e Literatura Brasileira, é professor da Universidade Estácio de Sá