Algo melhor

        Há muitos anos, em agosto, campanha televisiva de alcance nacional para doação em prol de crianças e adolescentes estimula a generosidade do cidadão. Apesar do notável empenho, o resultado atinge menos de 2% da população do país.

Por que isso?

        Talvez porque impulsione uma generosidade tributária de palavras, de imagens geradas do exterior, ocasiona uma moral emocional, descontínua, não cria uma consciência permanente, introjetada. Aquilo que antes dependia da educação depende agora da mídia, que consegue, esporadicamente, mobilizar o público. O pluralismo é a marca da moderna sociedade democrática. Mas do pluralismo que a caracteriza para o relativismo que a ameaça vai só um passo, que se dá muito rapidamente hoje.

        Vemos isso, por exemplo, no tramento da questão do consumo de álcool e drogas. Vemos também os limites da ação humanitária, que serve de álibi à impotência política.

Mais do que orquestrar a generosidade mediante mensagens televisivas, precisamos de instituições políticas e econômicas capazes de permear a generosidade no tecido social através de um núcleo estável de valores partilhados. Com o recuo moderno da tradição, cada qual passou a ter de determinar-se, já dizia Sartre.

        O que faz sentido hoje não são os grandes projetos, e sim o que faz recuar o máximo possível o individualismo irresponsável, um objetivo que cada um de nós – pais, professores, empresários, terapeutas – pode realmente se fixar e nele reconhecer-se. O individualismo não deve conduzir ao descrédito da ação pública, e sim à invenção de dispositivos mais favoráveis de solidariedade, se desejamos realizar algo melhor.

Tarcisio Padilha Junior é engenheiro