Sem medo da ira de Deus

        Quando Deus não era essa pessoa politicamente correta que hoje domina o imaginário humano, que ama em sua infinita bondade da mesma forma as vítimas de assassinos, estupradores, pedófilos, agiotas, genocidas, desmatadores, caçadores de espécies em extinção, donos de fábricas de armas, traficantes, políticos canalhas que roubam verbas dos desabrigados por catástrofes, verbas de hospitais, verbas de merenda escolar, verbas de transporte, verbas da educação, verbas do saneamento, verbas da segurança, enfim de tudo que possam pilhar, as coisas eram ligeiramente diferentes nesse planeta dos humanos.

        O Deus de antigamente era osso duro de roer, testando seus filhos e filhas no limite de suas forças. Para os que pisavam na bola, havia o purgatório; e para os casos mais extremos, o inferno, onde os malditos pecadores iriam torrar por toda a eternidade. De alguma forma, não totalmente, o medo de torrar no inferno ou de sofrer alguma punição divina controlava ligeiramente o macaco recentemente descido das árvores, e assim o espírito reptiliano, territorialista, predatório e autodestrutivo que tanto caracteriza ainda a adolescente espécie Homo sapiens era aquietado.

        Em sociedades mais civilizadas, o investimento em educação de qualidade, aos poucos trocou o inferno e seus derivativos pelas variadas e mais espetaculares possibilidades para aqueles que desejassem investir numa das máquinas biológicas mais belas existentes no planeta Terra, o cérebro humano. Espetacular o que podem produzir aqueles bilhões de células, integradas por tantos outros bilhões de sinapses. Não é por outro motivo que ainda estou aqui escrevendo estas linhas e podendo ver minha prole crescer. No entanto, o lado sombrio do produto dessas mesmas sinapses pode gerar os maiores horrores, inconcebíveis, inaceitáveis e ao mesmo tempo completamente justificáveis racionalmente pelos seus algozes. Tem sido assim nos milhares de brigas, disputas, batalhas e guerras que têm manchado de sangue todos os cantos do planeta.

        Pensando mais especificamente para os meus campos de batalha ambientais, chego a ter saudades do Deus antigo, destruidor, que punia com inundações e fogo seus mal agradecidos produtos da evolução. Na última semana de julho, uma maré absurdamente baixa expôs, mais uma vez, o quadro de total incivilidade dos moradores de minha cidade. Na agonizante laguna da Tijuca, pude contar 185 pneus numa única ilha, exposta de lama e lixo. Somavam-se a estes uma máquina de lavar, dezenas de sofás, duas lixeiras e muito, mas muito lixo doméstico. Aquilo que foi um dia água borbulhava de gás sulfídrico e metano. Nada de novo. Parecia que havia ocorrido uma guerra ou, melhor, que eu estava na porta de algum tipo de inferno pós-moderno. Contrastava com esse cenário apocalíptico, o voo de colhereiros, frangos d'água e marrecas-toucinho que tentavam entender o que estava acontecendo naquele lugar. Subi o Arroio Fundo, e vi lá do alto que grande volume de lixo produzido pela população da Cidade de Deus é amontoado nas margens do arroio e, posteriormente, as várias montanhas de lixo doméstico, sofás, TVs etc vão parar inevitavelmente dentro do pútrido arroio, e deste para as lagoas.

        Poderíamos dizer que “esses favelados não têm jeito”! Infelizmente, não são só eles que degradam o ambiente pelos mais variados motivos históricos, culturais e educacionais.  Ao sobrevoar outro trecho da mesma lagoa, avistei na mesma área onde estão espalhados inúmeros outdoors dizendo: “IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA DE ESGOTAMENTO SANITÁRIO DA PENÍNSULA E DO SEU ENTORNO”. A grande maioria das galerias de águas pluviais vomitava de forma quase que permanente esgoto como se na região estivesse chovendo merda!

        Incrível, após investimentos na casa de milhões de reais, inaugurações com toda a pompa e circunstância, muita mídia, sorrisos, rasgações de seda e discursos emocionados, a merda insiste em continuar escoando para as águas da laguna da Tijuca. Aí a Cedae, sempre ela, diz que o problema é do shopping X. Outro setor do próprio governo, estadual que não quer se expor, diz de boca miúda que a rede da Cedae é que foi mal projetada, executada ou não sei mais o quê. Enfim, muito jogo de empurra, e a merda continua escoando para a lagoa.

        Tem sido assim nos últimos trezentos anos, e o resultado dessa falta de amor pela cidade, pelo ambiente do qual dependemos, é essa merda que eu pago caro e presencio nas lagoas, baías e morros, onde sobra esgoto e lixo por todo canto, e a população parece estar acostumada a viver naquele inferno ambiental. Mas convenhamos que inferno ambiental é termo para intelectual que se alimenta três vezes ao dia e tem tempo para pensar e filosofar na frente do computador.

        Enfim, a falta de medo de um Deus vingativo, misturada com falta de educação de boa qualidade, pode estar criando uma reação do tipo “deixa a vida me levar” que está nos conduzindo a um profundo abismo. Talvez já tenhamos caído nele, apenas não tenhamos nos dado conta da queda, até o momento de nos estraçalharmos no fundo com nossa miopia e arrogância.

        Não tenho dúvidas de que, se Deus deixasse de lado seu lado pós-moderno e retornasse ao seu modus operandi original, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo entre tantas outras metrópoles seriam incineradas de imediato tal como Sodoma e Gomorra.

        Pecamos diariamente por ação e principalmente omissão deixando muitas vezes nas mãos de irresponsáveis o nosso futuro e de nossos descendentes, acreditando que nunca receberemos em casa a fatura de tamanho descaso. E como dizia aquele velho samba: “Tudo que se faz na Terra, se coloca Deus no meio. Deus já deve estar de saco cheio....”.

Mario Moscatelli é biólogo e ecologista