O Rio vai virar mar

Recebi uma oferta de viagem baratíssima: férias em Fernando de Noronha. De avião até a costa, e, do aeroporto até a ilha, de ônibus leito, “com todo o conforto”. Eu devia comprar logo, eram as últimas vagas.

Ao lado havia também a notícia de que 36 mil já haviam sido castrados num certo município e que eu poderia ajudar como voluntário numa barraca cedida pela prefeitura. Eles têm razão: cadastrar é ainda mais difícil do que fazer flutuar um ônibus leito! Se de bem intencionados o inferno está cheio, o mundo está cheio de revisores desatentos, que deixaram passar tantos erros. No primeiro caso, um absurdo erro geográfico. No segundo, um erro fatal de ortografia!

Preferi ler livro que a seguir comento. O título é 1001 invenções que mudaram o mundo (Editora Sextante, 960 páginas).

Logo às primeiras páginas ficamos sabendo que as primeiras ferramentas da Humanidade datam de cerca de 2.600.000 a.C., e que foi possível fixar esta data em 1969, quando no Quênia foram encontrados núcleos, lascas e lâminas.

Com os núcleos, pesados, mas manejáveis pedaços de rocha, foram feitas as lascas. E, esfregando uma lasca em outra, foi feita a primeira lâmina. Dali a barbear-se com ela foi um pulinho.

Depois veio o fogo, inventado por volta do ano 1.420.000 a.C., segundo pesquisas feitas igualmente no Quênia, em 1981, e na África do Sul, em 1988. Usado para cozinhar alimentos e para espantar o frio, o fogo logo se transformaria em arma.

No começo, o homem tacou fogo na toca de animais para tirá-los do esconderijo, matá-los a porradas, tirar-lhe o couro com lascas e lâminas, destripá-los com a avó das facas, que deveria ser uma lâmina mais bem trabalhada do que as outras, assá-los e comê-los.

Com o couro de alguns, foram feitas as primeiras roupas. E nascia moda, que até hoje vemos em blusas femininas, de um ombro à mostra e outro coberto, ensejando um laço na ponta do couro fixada perto do pescoço.

Nascia também a casa, pois o homem poderia abrigar-se, não mais apenas na caverna, pois com couros emendados ele pôde fazer tendas. Com as tendas, nascia também o pastoreio, os animais domésticos. A caça deixava de ser uma necessidade, virava esporte ou diversão, os animais para comer e para dar o leite de alimento aos filhos do homem eram agora criados ao redor de casa.

As primeiras casas surgiram em Heidelberg, na atual Alemanha, entre 800.000 e 200.000 a.C., pois o homo heidelbergensis foi ancestral do homo sapiens e do homem de Neanderthal. Este morreu de frio por volta de 28.000 a.C., uma vez que os abrigos que fizera se mostraram insuficientes para protegê-lo.

Pulando um pouco as páginas, vemos que os anzóis foram inventados por volta de 35.000 a.C., e os primeiros foram de ossos, chifres, conchas, madeira. Com isso, a dieta alimentar recebia novos e saborosos pratos. No cardápio, além de frutas e carne, havia também peixe.

Os aperitivos alcoólicos demorariam um pouco mais e só chegariam por volta de 10.000 a.C., sendo o primeiro deles a cerveja. O álcool, usado em cerimônias religiosas e celebrações, levava também a comportamentos menos inibidos. E os costumes começaram a ser alterados em velocidade maior.

As invenções vêm até 2008.

Já estão voando aviões que vão reduzir de dezoito para duas horas uma viagem de Nova York a Tóquio. O Viagra, inventado em 1998, e o fígado artificial, em 2001, são outros exemplos.

A velocidade é a grande dama dos atuais inventos. E ela se mostra mais evidente no computador pessoal e na internet.

notebook foi inventado em 1983, e a internet na década de 1960, com o nome inicial de arpanet, usada apenas pelas Forças Armadas americanas; o público somente a conheceria a partir da década de 1970, já com o nome de internet.

A vida está cada vez mais curtinha no tempo psicológico, por força da velocidade que tomou conta do mundo, e mais longa no cronológico.

O homem da Idade da Pedra vivia menos de trinta anos e o tempo demorava a passar. Sabemos que a diferença entre o tempo cronológico e o tempo psicológico é enorme!

Não podemos ainda ir a Fernando de Noronha de ônibus leito. E, a acreditarmos nos anunciados desastres de inundação, em breve outra profecia se realizará: não apenas o sertão vai virar mar. Também as cidades costeiras.

Deonísio da Silva, escritor e doutor em letras pela USP, é pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá e diretor de Relacionamento.  Seus livros são publicados no Brasil pela Editora Leya e Novo Século