As perversões de uma certa irracionalidade

        O recente impasse entre o Congresso norte-americano — cuja Casa de Representantes é majoritariamente republicana — e a Casa Branca transcende o aspecto puramente econômico. Aliás, a despeito da enorme importância de uma possível não elevação do teto do endividamento do país e do rebaixamento da classificação de risco deste, o que causa espécie é a capacidade dos decisores da maior potência do planeta de brincarem com fogo.

         As possíveis consequências desse jogo político com lógica de curto prazo podem ser extremamente problemáticas, não só para os Estados Unidos como para o mundo. Não é à toa que a recém-empossada diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, tenha afirmado que o final dessa história pode ser terrível para os Estados Unidos e terrível para o mundo. Convenhamos, é melhor um final terrível do que um terror sem fim. O problema é que, pelo encaminhamento que vem sendo dado à questão, o final ainda não parece estar assim tão próximo.

Como se sabe, o Congresso tem a palavra decisiva nas questões econômicas nos Estados Unidos, e isso é da democracia, sendo salutar o sistema de freios e contrapesos do país, já ressaltado em prosa e verso por boa parte dos analistas do sistema norte-americano. O problema é que, mesmo que seja praxe a concessão de novos tetos para a dívida americana (foram 78 desde 1960), desta vez a questão maior parece residir no jogo eleitoral de 2012. Portanto, o mais lógico é que a solução do problema seja apenas parcial, para que a decisão de fato se dê no ano que vem.

Quando Obama perdeu as eleições de meio de mandato e os republicanos se tornaram majoritários no Congresso, sabia-se que ele teria dificuldades para governar e, mais do que isso, para viabilizar-se com vistas a um eventual segundo mandato. O assanhamento dos republicanos era tal que muita gente acreditava que Sarah Palin poderia ser, de fato, uma alternativa viável à Presidência, mesmo com todas as polêmicas que envolvem sua figura. Naquele momento, Obama parecia ter poucas chances de ter um segundo mandato.

Em 2011, entretanto, a morte anunciada de Osama bin Laden pareceu inverter o jogo a favor de Obama. Mais do que isso, o grande problema parece estar entre os próprios republicanos, que a cada momento parecem encontrar um candidato mais problemático do que o outro (lembram do Donald Trump?) e, ao mesmo tempo, constatam perplexos que não possuem um candidato viável para enfrentar Obama.

Nesse sentido, como já se constatou anteriormente que o bom desempenho da economia é fator decisivo nas eleições americanas, que tal criar um impasse em torno dos recursos governamentais? Nunca é demais lembrar que parte do incremento desse endividamento vem das guerras engendradas no período neoconservador de Bush, cujas contas e ônus têm recaído sobre o governo Obama.

É aí que reside o xis da questão. Quando anunciou a morte de Bin Laden, viabilizou-se eleitoralmente e ganhou novo fôlego, Obama aproveitou para tentar novamente fazer algumas mudanças na área de segurança e defesa, cortar gastos militares e livrar-se dos republicanos ainda no governo, além de cumprir a velha promessa de campanha de diminuir a presença dos Estados Unidos no Afeganistão e, principalmente, no Iraque.

Ora, essa é a menina dos olhos dos republicanos e principalmente do radicalismo que vem crescendo no interior do partido, denominado de Tea Party. Esses radicais claramente não suportam um afrodescendente, refinado, sofisticado, comunicativo e que tem um nome estranho, um sobrenome Hussein, um passado que remete à geração progressista hoje na faixa dos 50 anos e cuja carreira política entre o Senado e a Presidência foi meteórica. Isso é demais para os “novos fundamentalistas cristãos” do Tea Party, e eles farão de tudo para livrar-se de Obama.

Os republicanos históricos, perdidos, precisam do Tea Party para manter uma densidade eleitoral. Mais do que isso, o insípido John Boehner, aproveitando-se do vácuo de candidatos, tenta, ele mesmo, tornar-se unanimidade no partido às custas do impasse em torno da dívida norte-americana.

Em um passado não muito distante, entre o final de um governo democrata e o início de um republicano, o Federal Reserve (Banco Central dos EUA) resolveu aumentar estratosfericamente a taxa de juros do país, para fazer frente a uma redução de impostos, e o que se viu na América Latina e em boa parte do mundo não desenvolvido foi a chamada “década perdida”. William Greider, no seu brilhante livro Secrets of the temple, denominou o capítulo que trata dos efeitos dessa crise de “Massacre dos inocentes”.

O grande problema do impasse norte-americano parece ser uma certa irracionalidade perversa que não leva em consideração a globalização e, por consequência, o restante do mundo. Irracionalidades e fundamentalismos já nos legaram Auschwitz, 11 de Setembro e o recente Massacre de Oslo. Tomara que desta vez o bom- senso prevaleça.

Moisés Marques é professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Santa Marcelina