Ébrio indigente

     Viçosa. Sexta-feira. Dezessete de junho. A mais escura e, espiritualmente, negra das horas da noite havia passado. Eu me preparava para tirar uma madorna no meu modesto refúgio quando o silêncio é quebrado pela voz em canto, cansada e suplicante, de um ébrio solitário, que estava na Praça Apolinário Rebelo.  Saí do quarto e fui até a área ver o que acontecia. Ao longe, vislumbrei alguém em pé na calçada que, desordenadamente, alternava versos de violenta revolta com soluços de pranto em tom de gravíssima dor.

A cena me comoveu a tal ponto que fiquei olhando, por mais de uma hora, os tombos causados pela embriaguez do solitário seresteiro e escutando o que, repetidamente, sem violão ou outro qualquer instrumento musical, a chorar cantava.

Por que aquele homem estava ali, totalmente embriagado, naquela madrugada fria, chorando e cantando desesperadamente?

Ali estava, qual náufrago que não deseja se afogar, à espera de quem lhe estendesse a mão e o salvasse para que, também, pudesse salvar. Ali estava, qual menino doente e com fome, a aguardar a cura e o alimento. Ali estava, qual desabrigado e indigente, pois há muito que a cheia levou sua casa, e, apesar das promessas, ele e sua família ainda moram num desprezível abrigo ou infame barraco de lona e vivem na mais absoluta miséria. Ali estava, qual cortador de cana, a sonhar com a chegada do doce vento de uma sociedade mais igualitária. Ali estava, qual cordeiro preso no redil, impaciente por não ter encontrado o pastor que lhe mostre o caminho da libertação e não o do holocausto.

Portanto, não achei estranho que utilizasse a linguagem da dor e da angústia e pedisse como presente a morte: ela, com certeza, o aliviaria da vergonha e do sentimento de fracasso, pois ele não tem mais nada, a não ser as drogas que o consomem e o fazem escravo dos outros e dele mesmo.

Para que dizer que está vivo se não sabe o que é viver e nunca conheceu a felicidade? Se só sabe quão amargo é o gosto da tristeza e do sofrimento? Se o presente que mais deseja é um abraço para o além? Se todo dia clama a um Deus misericordioso, e seus lamentos não são ouvidos?

Senhor Deus, não deixe os ébrios tristes e solitários que cantam e soluçam nas madrugadas frias e incineram o chão com lágrimas de fogo, tão sós e desesperados. Para libertar todos os teus filhos, injustiçados e escravizados, manda desta vez um messias de comportamento guerreiro e que tenha como objetivo a revolução através de golpes de baionetas, pois só com essa nova fé renascerá a esperança em outras estradas a serem trilhadas.

Aloisio Vilela de Vasconcelos é professor da Universidade Federal de Alagoas